“Você é feliz?” – essa foi a primeira coisa que ele me perguntou. Eu olhei com olhos curiosos. Precisava saber qual a profundidade da pergunta. Afinal, é igual quando falamos “oi, tudo bem?”, e nem sempre estamos prontos pra resposta. Às vezes poderia ser só um automático “sou e você”? Bom, foi o que eu respondi. Então ele me olhou novamente e dessa vez parecia que ele podia ver através de mim e perguntou mais uma vez: você é feliz? Eu gelei. Ele realmente queria uma resposta, sincera, e eu não sabia o que dizer. Acendi um cigarro nervoso e era perceptível que eu havia começado a tremer. Ele deve ter reparado. Na verdade ele olhava meus mínimos movimentos e eu me sentia meio nu. Vulnerável. Ele fitou a fumaça que saía da minha boca e se dissipava. Ficou assim alguns instantes que para ele devem ter sido apenas alguns segundos e para mim soaram como horas.

“Eu não estou perguntando se você é feliz na aparência. Na imagem. Eu te sigo no instagram, vejo as tuas fotos e acompanho a tua história virtual. Tudo tão lindo. Viagens e etc. Eu estou perguntando aí dentro. Lá no fundo.”

Eu quero saber daquele tipo de felicidade que você acorda e dá bom dia pro sol. Aquela coisa que habita em todas as células do teu ser e não no teu espelho. A felicidade que não vem, mora. Que te faz apreciar as coisas pequenas da vida. É dessa felicidade que eu estou falando. E aí? A pessoa que deita a cabeça no travesseiro no final do dia, essa pessoa, é feliz?- ele disparou como se fosse uma metralhadora.

–  eu não sei. Quer dizer… talvez? – agora eu estava quase engolindo o cigarro.

“Esse é parte do problema. A resposta deveria ser simples e rápida. Direta. Objetiva. Acho que é nisso que nos perdemos. Nos preparamos tanto para vender uma imagem feliz e bem realizada que esquecemos de olhar as imagens que vão dentro de nós.”

O reflexo da nossa alma nas águas da vida. Mas acho que você vai ter bastante o que pensar e eu vou te deixar assim. Nos vemos outra hora. – e foi embora da mesma forma que chegou, rápido, frio e deixando uma bomba que eu não sabia se engolia ou chutava.

No fim das contas nós nunca mais nos encontramos. Eu fiquei um bom tempo pensando na pergunta que ele havia me feito e em todas as variáveis possíveis. Não. Eu não era feliz. E isso me colocou pra pensar por alguns dias. Sobre o conceito de felicidade real. Eu já encontrei as respostas todas aqui dentro e agora eu vou passar a mesma bomba que ele me deixou, pra você. Você é feliz? Não estou perguntando o teu “eu lírico”, a pessoa que todo mundo vê no facebook, no instagram e nas festas.

Não quero saber das tuas fotos nem das viagens que você já fez. Muito menos teu extrato bancário.

Quero saber daquela felicidade que faz você sorrir de manhã logo depois de acordar. Aquela sensação que vem de dentro e faz você aproveitar momentos tão simples, como uma caminhada na hora do almoço próximo do teu trabalho, deitar na grama em um parque no domingo a tarde. O cochilo pós almoço. O trabalho… você é feliz com o que você faz todos os dias? Tem tido tempo pra praticar aquele hobby que te dá motivação? O livro que você parou na metade jurando que terminaria de ler e, no fim das contas, muitas coisas acabaram na tua vida muito antes dele. É uma pergunta complicada quando não estamos esperando. É muito raro hoje em dia alguém completamente bem resolvido. E pensar na questão da felicidade real é complicado, ainda mais assim, na lata, sem aviso ou introdução. Mas a primeira coisa que temos que fazer é olhar para dentro e avaliar se realmente somos ou não, para daí sim, pensar no que podemos mudar para nos tornamos felizes ou para que possamos atingir o ápice, caso a resposta seja “sim”. Complicado né?

A gente fica tanto tempo pra escolher uma foto pra postar mas nunca paramos pra pensar se é isso mesmo que queremos, se a imagem que postamos é a mesma de dentro. É fácil sorrir para uma foto, difícil mesmo é sorrir pra vida.

Passamos boa parte da nossa vida tentando ser o que os outros esperam e não o que queremos. Parece loucura, afinal todos temos sonhos meio malucos. Claro, temos que ser realistas, não posso largar tudo pra ser astronauta, eu tenho contas pra pagar e etc. Mas isso não quer dizer que eu tenha que me contentar com tudo, como se fôssemos um grande rebanho de porcos que se alimentam do que nos é dado e está tudo certo, muito pelo contrário, temos que lutar pra alcançar as coisas que realmente nos agradam. E isso vai muito além da imagem que a gente estampa ali pra todo mundo ver. A pessoa que deita a cabeça no travesseiro é a real, é a imagem que não quebra, a foto que não desbota. É o HD da vida que não pode ser apagado.

Ser feliz pode ser algo muito simples. Mas precisa estar em todo o teu ser.

A começar pelo trabalho, amigos, relação com a tua família. Estar bem resolvidos é uma parte importante do processo, mas não fundamental. Até porque a maioria das pessoas na casa dos 20-30 anos, que eu conheço, mal sabem o que estão fazendo da vida. Então não se pressione tanto por talvez também não saber, ou por ainda ter muito o que arrumar nessa casa meio bagunçada que mora dentro de ti. Se é difícil manter um quarto em ordem, imagina uma vida inteira? É um trabalho lento e delicado, mas que deve ser feito. Que tal a gente parar de se contentar e fingir?

Não dá pra ser feliz virtualmente e na vida offline abraçar o travesseiro pra chorar. Seja verdadeiro com você mesmo.

E procure maiores satisfações pra ter um motivo real de acordar na segunda de manhã, seja um trabalho incrível ou um orgasmo de cair a pressão. Seja satisfeito e se precisar, se satisfaça. Mas movimente-se. Estagnação é algo muito perigoso e nunca se esqueça de algo que eu não esqueço: o universo nasceu do caos e não da bagunça. Então vamos começar arrumar as coisas de dentro pra fora. Não ter medo de expor que a gente realmente é e o que de fato sentimos. Ninguém é obrigado também a estar bem o tempo todo. Aceite isso. Temos falhas. Todos tem. Somos seres humanos e não divinos. Olha aí pra dentro, reflita e seja verdadeiro com você mesmo. Pode levar um tempo até realmente descobrir o que esconde até de você mesmo. Bem, eu nunca havia parado pra pensar e a resposta foi um grande tapa na minha cara. Vai que é na tua também. Mas daí eu te pergunto, e aí? Você é feliz?

Sobre o autor do artigo:
Carlo Enrico é paulistano, talentosíssimo, e escreve sempre em seu blog pessoal, 27 bobagens

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