Uma simples questão de orçamento acabou por criar uma das histórias queer mais revolucionárias na televisão. Ryan O’Connell, escritor de Will & Grace e autor do livro de memórias I’m Special: And Other Lies We Tell Ourselves (Eu sou especial: E outras mentiras que contamos a nós mesmos, em tradução livre) não estava apegado a estrelar a série que escreveu e criou quando a apresentou.

Mas O’Connell, que é gay e vive com paralisia cerebral, acabou sendo a opção mais barata para estrelar o show e, assim, nasceu Special, que acabou de ser lançada na Netflix: uma série criada, escrita e estrelada por pessoa queer vivendo com uma deficiência baseada em sua própria história de vida.

Representação de deficiência ainda é bastante inexistente na televisão. De acordo com a GLAAD, embora mais de 13% dos americanos vivam com uma deficiência, apenas 2,1% dos personagens em programas de TV no horário nobre vivem com uma deficiência – 18 personagens no total. Esse é, na verdade, o maior percentual que a GLAAD registrou em seus nove anos de rastreamento, o que, esperamos, aponta para uma tendência ascendente. Mas ainda há muito a percorrer, e Special, dirigida por Jim Parsons, o Sheldon de The Big Bang Theory – que também é gay -, não apenas empurra o medidor na direção certa, mas também aborda como a homossexualidade se relaciona a isso.

É um ponto que pessoas como o ativista e modelo absurdamente maravilhoso surdo Nyle DiMarco abordou diversas vezes: não há representatividade deficiente suficiente quando se trata de tudo, desde programas infantis ao universo cinematográfico da Marvel. Em outubro, DiMarco postou um anúncio da CW em seu Twitter que elogiava o compromisso da rede com a diversidade racial, sexual, de gênero e étnica, mas, como DiMarco apontou, não mencionou a representatividade de pessoas com deficiência.

“Ei, CW. Você esqueceu de incluir pessoas com deficiência (o maior grupo minoritário) em sua campanha Aberta a Todos? O vídeo também não tem legendas.”

Special não coloca apenas pessoas queer na tela, ela centraliza sua vida interior e lida com uma série de questões espinhosas e complicadas – ao mesmo tempo em que provocam grandes gargalhadas.

Na série, O’Connell interpreta Ryan Kayes, um cara gay de 20 e poucos anos que vive com paralisia cerebral e trabalha em um site focado em millenials chamado EggWoke.

Em apenas oito episódios de 15 minutos, pela primeira vez na Netflix, o programa aborda o preconceito internalizado contra deficientes, sexualidade queer com deficiência, trabalho sexual, monogamia gay, exploração de histórias marginalizadas, Instagays e muito mais.

Em entrevista antes da estreia, O’Connell discutiu o espectro da deficiência, por que as cenas de festas na piscina parecem tão universais e se ele sente pressão de representar toda a comunidade de deficientes em um programa.

Ainda sobre representatividade, a atriz Punam Patel, que interpreta a melhor amiga e colega de trabalho de Ryan, Kim Laghari, falou sobre diversidade:

“Minha personagem é gordinha com orgulho e não quer mudar absolutamente nada sobre ela. Então, acho que é importante ver alguém que não veste tamanho zero ser confiante por aí e amar sua aparência”.

Veja a entrevista promocional com o elenco para a Netflix do Reino Unido, apenas em inglês, sobre deficiência e representatividade de minorias.

Alerta de spoiler: vários pontos de enredo de Special da Netflix são discutidos nesta entrevista com Ryan O’Connell.

Logo no início da série, você tem uma cena falando com seu treinador sobre estar no Grindr. Você sentiu que esperou mais tempo para usar esses aplicativos do que outros gays?

Eu definitivamente olhei para os aplicativos. Eu tenho um namorado há quatro anos e ainda estou nos aplicativos, querida, olá, bem vindo ao futuro. Mas nos meus dias de solteiro, lembro que estava no Grindr e no Scruff, mas raramente encontrava alguém porque eu só tinha ansiedade. Eles vão notar que estou mancando? Estou fazendo propaganda enganosa? Foi uma coisa complicada para navegar. Porque eu senti que minha deficiência não era pronunciada o suficiente para fazer a diferença. Eu senti que avisá-los sobre mancar era broxante, mas eu não queria que ninguém sentisse que tinha sido enganado. Eu estava nos aplicativos, mas precisava de uma garrafa de vinho para convidar alguém.

Eu realmente amei uma conversa que seu personagem tem no programa sobre ser deficiente, mas não ser “muito deficiente”, como, digamos, alguém que anda de cadeira de rodas. Obviamente, seu programa é um grande passo à frente para a representatividade da deficiência na TV, mas você sente a pressão para que o programa represente uma grande faixa da comunidade de deficientes?

É muita pressão porque não tem havido muita representatividade da deficiência, muito menos partindo de pessoas com deficiência. Eu sei intelectualmente que é verdadeiramente impossível que a série fale por uma população inteira de pessoas. Isso simplesmente não dá para acontecer. Então, sinto que preciso escrever algo autêntico das minhas experiências. E eu sinto que à medida que você ganha mais especificidade, você fica mais universal. Espero que Special abre a porta para mais vozes deficientes contarem suas histórias. Eu não posso falar por uma população inteira de pessoas.

Eu não sei se você já assistiu Shrill no Hulu, mas assim como o Special, há uma cena de piscina onde o personagem principal é confrontado com seu próprio corpo. Por que você acha que um cenário de piscina pode ser tão emocionalmente carregado?

Bem, acho que o cenário da festa na piscina é muito relacionável. Eu sinto que todos, em algum momento de suas vidas, foram convidados para uma festa na piscina e sentiram ansiedade ao tirarem as roupas na frente de um grupo de estranhos, ou mesmo amigos. Eu passei muito da minha vida me sentindo muito consciente do meu corpo, não me sentindo bem o suficiente.

Todos os sentimentos que Ryan tem no episódio da festa na piscina são coisas com as quais você se relaciona. Eu não sei se alguma vez fui convidado para uma festa gay na piscina, [mas a ideia é] profundamente cheia de gatilhos.

Eu acho que me sintiria consciente, especialmente em uma festa cheia dos Instagays porque eles têm esses corpos bonitos e convencionais e isso definitivamente não é meu. Você não pode deixar de se comparar. “Compare e se desespere”, é o que eles dizem. É difícil. A relação com o corpo está sempre evoluindo. Isso realmente depende do dia. Alguns dias eu gosto, eu amo meu corpo! Eu sou positivo com ele! E outros dias eu fico tipo: ‘Eu sou literalmente um goblin‘.

Assistir ao seu show coincidiu comigo assistindo a Shrill e depois também houve um episódio no The Other Two da Comedy Central sobre o Instagays. Parece que os Instagays estão tendo seu momento cultural de despedida.

Totalmente. Há muito o que minar de lá. Sejamos honestos. É apenas uma subcultura muito engraçada das pessoas. Eu não conheço nenhum Instagay pessoalmente. Eu não sei o que eles fazem para viver. Deus abençoe, mas sim, The Other Two é tão brilhante. Eu amo esse show. É tão inteligente e tão engraçado.

Seu personagem também lida com um longo arco de preconceito interno contra deficiência e mantém sua deficiência em segredo. Você viveu essa experiência, então escreveu sobre isso em seu livro de memórias e agora para a série. Como é viver essa experiência, mas depois traduzi-la para a tela e ter acesso a esses sentimentos novamente?

Eu realmente gostei. Porque eu acho que quando eu escrevi o livro, eu estava tão desconectado de meus sentimentos sobre minha deficiência e o fato de que tinha mantido isso em segredo nos últimos seis anos.

Embora fosse catártico escrever sobre isso em meu livro, senti que havia sido apenas superficial e só começado a entender o que eu havia feito comigo mesmo.

Conversar sobre isso no programa foi uma oportunidade incrível, porque aprendi muito sobre mim mesmo e sobre como não aceitava e como isso me fodeu em um nível tão profundo.

Eu nem sabia sobre preconceito internalizado quando escrevi o livro. E se eu soubesse o que era, eu nem saberia que sofri com isso. Eu estava começando a desempacotar o que estava guardado sobre as coisas que a deficiência tinha causado em mim, eu só não estava lá ainda. Então, fazer isso na série foi incrível, porque sinto que cresci muito e entendo as coisas muito melhor do que naquela época.

Na série, seu personagem vai a um encontro com outra pessoa com deficiência e você meio que dá um fora nele. Você já descobriu que o preconceito te impediu de namorar outras pessoas com deficiência?

Sim, isso realmente aconteceu comigo no ensino médio. Tinha esse cara gay surdo muito fofo na minha escola e ele me pediu no Myspace ou algo assim. Eu me lembro de ficar com tanto nojinho tipo, “Quem ele acha que é que ele pode me convidar para sair e eu dizer sim?” Enquanto isso, estou babando em mim mesmo e mancando tipo “Como você se atreve!?”. Tipo, “eu só saio com pessoas capazes por favor!”

Eu pensei que estava justificado em me sentir assim. Eu não tinha ideia do quão fodido eu estava me sentindo desse jeito. Eu acho que é tão fascinante e específico para a comunidade de deficientes. Mas acho que é específico fora da comunidade de deficientes de uma forma mais ampla com homens gays.

Às vezes você internaliza a homofobia e às vezes alguém lembra de coisas que você não gosta em você e isso faz com que você as rejeite.

Há uma conversa em Hollywood agora sobre pessoas de comunidades marginalizadas poderem interpretar a elas mesmas. O plano sempre foi você protagonizar Special?

Não, nunca. Não houve discussão. Quando saímos para apresentar a série pela primeira vez, eu não estava apegado a estrelar. Não havia ninguém ligado a protagonizar. Falamos sobre “quem é que vai me interpretar?”

E, inicialmente, fomos apresentar a série no Stage 13, uma filial digital dentro da Warner Bros., mas por necessidade financeira, foi tipo “não temos dinheiro, Ryan é muito barato, então seja bem-vindo a Hollywood, querido!”. Então fui forçado a me interpretar.

Estava com tanto medo. Eu nunca quis atuar, mas agora, eu estou tão feliz e não consigo imaginar mais ninguém fazendo isso. Olhando para trás, eu gosto de me apresentar. Eu estava em peças no ensino médio e na faculdade, mas sinto que nunca me dei a vontade de realmente querer isso. Eu estava com vergonha, tipo “sou apenas um escritor, estou nos bastidores do Studio City na sala de um escritor e essa é a minha jornada.” Agora, eu sinto que gosto de atuar e tudo bem.

Eu realmente amei o enredo onde seu personagem tem uma experiência positiva com um profissional do sexo. Quão importante foi mostrar esse tipo de interação entre uma pessoa que vive com deficiência e alguém que trabalha com sexo?

Bem, essa cena foi realmente muito importante para mim. Aquela cena de sexo era meu bebê. Eu fiquei muito frustrado com a falta de representação de sexo gay no cinema e na TV. Eu não entendo porque o sexo anal não foi normalizado ou retratado pelo que é. Você tem Queer as Folk, realmente pornográfico, ou você não tem nada.

Então eu sabia quando estava começando a temporada que queria ter uma cena de sexo honesta, e eu também tive uma experiência com um profissional do sexo que foi tão incrível e eu queria criar uma cena que fosse também pró-profissionais do sexo.

Eu também queria ter certeza de que Ryan perder sua virgindade fosse uma cena agradável e terna e que eu não ficasse traumatizado. Eu senti que isso era muito importante. Quando algo é tão comum em sua vida e você não vê isso na TV ou no cinema, fico realmente frustrado. Eu penso: “Por que isso é tão inovador? Isso é algo que muita gente experimenta!”

E a cena também contou com lubrificante. Cenas de sexo gay nunca mostram lubrificante!

Sim, acho que foi na verdade a adição do meu produtor gay. Eu acho que foi o meu produtor dizendo “Ele definitivamente deveria ter lubrificante!” O lubrificante é obviamente uma parte muito essencial do sexo gay. Não pode sair de casa sem ela!

Então, eu trabalhei em mídia digital por um tempo e vejo muito da mesma cultura do EggWoke [o site fictício onde Ryan trabalha em Special] que eu vi em muitas mídias digitais. Eles querem que você colha suas partes mais profundas e sombrias de si mesmo por cliques. Que conselho você daria aos escritores que estão vivendo com uma deficiência ou marginalizados de alguma forma que poderiam ser pressionados a contar suas histórias quando não estão prontos?

Meu conselho é que não façam isso. Eu sei que quando eu comecei a escrever para a internet, eu estava em um lugar tão faminto e desesperado, que eu fiquei tipo “eu vou escrever sobre qualquer coisa! Eu não tenho limites! Eu preciso de uma carreira.” E então, com o tempo, tipo seis meses, percebi que não era um lugar para se estar, emocionalmente se prostituindo por dois dólares. Você tem que realmente criar limites e perceber com o que você está confortável. Se você não está pronto, precisa dizer que não está pronto para falar sobre isso. Faça outra coisa: venda seu esperma, faça um trabalho de fetiche por pés. Isso tem mais integridade do que explorar você mesmo.

Você também tenta mostrar a estranheza que pode acontecer quando uma pessoa com deficiência e uma sem deficiência tentam fazer sexo. Que conselho você daria a pessoas sem deficiência que desejam conversar com alguém com deficiência nos aplicativos?

Eu não sei se já estive nessa posição. Estou tentando pensar. Eu realmente não namorei. Eu preciso dizer isso um milhão de vezes. Eu fiquei solteiro por muitos, muitos anos e acho que foi por causa de cenários como você acabou de dizer. Eu estava com tanto medo de falar sobre minha deficiência. Então, o que vou dizer é através da minha saída do armário da deficiência – geralmente ninguém se importa com as coisas que você se importa tanto quanto você. Quando se trata de transar, na minha experiência, quando você está lá, ninguém dá a mínima. É tipo “Vamos fazer!” Então, esteja confortável e confiante e se por qualquer razão a pessoa não for receptiva, se alguém tiver algum tipo de reação desagradável à sua deficiência, então diga “Tchau e boa sorte com seus malditos projetos!”


A primeira temporada de Special já está disponível na Netflix! Corre pra ver porque tá linda demais!

Entrevista de Mathew Rodriguez para a Out, com informações do Gay Times.