Não deveria, né? Finalmente perceber quem você é de verdade, no fundo, e descobrir pelo menos um dos sentidos da sua vida deveria ser lindo! Sair do armário deveria ser algo de que nos orgulhássemos. Deveria ser comemorado na família, entre os amigos. E por que será que não é assim?

A repressão vem de fora pra dentro. Até porque a criança não tem noção das coisas. Não sabe o que dói, o que é mal visto ou o que é aceito na sociedade. Ela mal entente o conceito de sociedade. Não à toa, ela arrota em público, tira meleca do nariz ou até enfia o dedo na tomada! As primeiras noções são ensinadas pelos pais. Afinal, eles são o primeiro exemplo dos filhos. Geralmente, é ensinado com carinho (pelo menos deveria ser).

Mas é claro que os pais não dão conta de educar um ser humano sozinhos.

Por isso, logo cedo, nós vamos para a creche/escola. É lá que aprendemos a comer de tudo, a dividir, a lutar pelos primeiros brinquedos, disciplina e, finalmente, a socializar. Ah! E que parte mais cruel da vida, né? Como as crianças não têm filtros, elas simplesmente replicam as ações que veem. Então, mesmo na melhor das hipóteses, em que você vem de uma família super moderna, você vai sofrer preconceito em algum momento da vida.

Só pra ilustrar, nos EUA, um estudo mostrou que 33% dos estudantes LGBT já sofreram bullying no colégio e 25% já tentou suicídio, só nos últimos 12 meses. A motivação pro suicídio não vem de dentro do jovem. Ela vem de fora! Vem do coleguinha de creche que aponta o dedo pro outro, que prefere escrever de rosa. Vem do colega de sala que junta com os outros pra bater no gordinho que gosta de Demi Lovato.

Se fora de casa as pessoas já riem e apontam o dedo, imagina o que passa na cabeça de uma criança ao pensar no que pode acontecer dentro de casa, com pais rígidos!

Cruel! É isso que o mundo é. Imagina dar conta desse monte de sentimentos quando criança. É uma luta interna e tanto. Isso sem pararmos para pensar naquelas pessoas que têm tendências depressivas.

Não é por menos que os caras desenvolvem essa armadura buscando ser “discreto e fora do meio”. Esse tal meio, na cabeça de muitos, é sinônimo de hostilidade e preconceitos! Quem iria querer fazer parte desse meio? A resposta é: quem desenvolveu uma casca dura, de tanto apanhar da vida por aí. E essa casca não é fácil de desenvolver. Cada um leva seu tempo. Leva tempo alcançar esse tal de “amor próprio”. Porque a cada dia, pequenas ações dos outros tentam nos diminuir, tentando nos colocar naquele lugarzinho apertado, frio e escuro em que ficávamos logo que nos descobrimos gays.

O orgulho hétero tá aí, esfregado na nossa cara o tempo todo. O nosso orgulho é que tem que ser construído pouco a pouco, dia após dia. Pancada após pancada.

É por isso que pode ser tão difícil sair do armário.

Imagina então o gay pobre, chamado de “pão com ovo”, da periferia, que precisa aguentar o dobro, senão o triplo, de pancada da sociedade. Pior ainda se você tiver a audácia de se apaixonar por alguém fora dos padrões, um homem mais velho, gordinho, por exemplo.

Por essas e outras, não julgue quem ainda está na luta. Quem ainda tem orgulho de ser “discreto e fora do meio”. Essa pessoa já foi (e ainda é) muito julgada na vida. “É lindo, que desperdício”, “é inteligente, mas é gay”, “é bem-sucedido, mas não fez menos que sua obrigação”. Ela ainda tem muitas batalhas internas pra travar e vencer. Tenha certeza de que essas batalhas só as deixarão mais fortes. Mas cada indivíduo lida com as pressões nas suas circunstâncias e no seu tempo

A gente já não tá mais forte?

E pra você? Como foi sair do armário? Foi mais simples? Eu dramatizei demais? Conta sua história pra gente! A gente quer te conhecer!