Com uma tragédia familiar demais, Pose cumpre a promessa de ser inspiradora quando a comunidade LGBT mais precisa. (Spoilers abaixo!)

“Estamos em qual mês, maio? E 11 garotas foram mortas este ano!” Angel (Indya Moore) lamenta durante o episódio de Pose sobre o assassinato da favorita dos fãs Candy Ferocity (Angelica Ross). Esta temporada se passa em 1990, mas a declaração é – intencionalmente – relevante para 2019, quando a 11ª mulher trans foi assassinada no final de junho nos Estados Unidos.

No Brasil, só em 2018, 163 pessoas trans foram mortas.

Como Candy, as 11 mulheres mortas este ano eram todas negras. Inclusive, esse número já pode ter subido quando você estiver lendo este artigo.

Quando Pose estreou em 2018, contando as histórias de pessoas de cor queer e de gênero não-conforme na Nova York dos anos 1980, o medo da violência e a morte pairavam sobre seus personagens – e sobre os fãs da série também.

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Quando Blanca (Mj Rodriguez) e Pray Tell (Billy Porter) foram diagnosticados com HIV, Angel passou a se prostituir, e Elektra (Dominique Jackson) ficou sem-teto, nós, os telespectadores, assistíamos quase sem respirar enquanto esperávamos o inevitável.

Como pessoas queer, e como pessoas queer de cor, quando somos confrontados com uma cena de violência contra um de nós, ficamos ansiosos e apreensivos, pois isso não é apenas ficção – é uma realidade vivida, e para alguns de nós, é uma história vivida. Enquanto Pose reconhece esse medo, Euphoria parece brincar com ele.

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Em um dos episódios de Euphoria, Jules (Hunter Schafer) é confrontada por Nate (Jacob Elordi), que finalmente revela ser “ShyGuy118”, com quem ela tem trocado mensagens de texto. Nate tem sido abusivo com homens e mulheres, e nós somos levados a crer que ele machucará Jules.

A cena foi concebida para explorar o medo da violência transfóbica, apesar de Jules sair sem danos físicos. Mas o fato de Euphoria nos ameaçar com violência contra alguém trans parece um truque barato. Ou talvez seja uma questão de circunstância.

Diferentemente de Candy, Jules é branca, vem de origens ricas e foi criada por um pai carinhoso e que a aceita. Além disso, não são os anos 1990.

Euphoria
Jules, vivida por Zendaya em Euphoria. Foto: Divulgação

A vida de Jules não tem sido fácil – um flashback nos mostra quando ela foi internada em uma instituição psiquiátrica com disforia de gênero – mas ela é livre e capaz de se concentrar nos impulsos da adolescência em vez de lutar para sobreviver.

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Mas Pose nunca foi apenas sobre a luta pela sobrevivência – em vez disso e intencionalmente, a série é sobre superação. Os criadores da série queriam fazer algo inspirador para a comunidade LGBTQ, particularmente agora com o governo Trump, e a série continua cumprindo a promessa. Mesmo nas horas mais sombrias, as personagens encontram a luz – por mais açucarada que ela seja.

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Ainda assim, uma das funções da arte é refletir a realidade. E a realidade é que 11 mulheres trans de cor foram mortas este ano nos EUA – quatro apenas em junho, o mês do Orgulho e das comemorações LGBTQ.

A realidade é que ainda é perigoso ser queer e/ou não-conforme de gênero em muitas partes do país e do mundo. Essa realidade era ainda mais difícil em 1990.

A segunda temporada começou na Ilha Hart, o local de uma vala comum de pacientes de AIDS não identificados. A morte paira sobre as vidas deles quando a epidemia foge do controle, até que o impensável, mas inevitável, acontece.

Candy Ferocity, a temperamental dos bailes, é encontrada morta no armário de um motel após um encontro ter dado errado. Conforme a irmã Lulu (Hailie Sahar), Candy passou a se prostituir para sobreviver. Pegando emprestado novamente de Paris Is Burning, a cena remete a Venus Xtravaganza, que, conforme descobrimos no epílogo do documentário, foi estrangulada e encontrada morta sob uma cama do Hotel Duchess em 1988.

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“Eu sempre disse a ela, ‘Venus, você se arrisca muito, você é muito selvagem com as pessoas nas ruas. Alguma coisa vai acontecer contigo,'” recorda Angie Xtravaganza, a mãe da casa de Venus.

A própria Angie viria sucumbir à AIDS em 1993.

Mesmo atualmente, com a falta das proteções trabalhistas para pessoas LGBTQ, as mulheres trans, devido à falta de outras opções, normalmente recorrem à prostituição – uma realidade que era ainda mais comum há 30 anos.

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A morte de Venus, um presságio, foi também um sintoma da vida dela como uma mulher trans apenas tentando existir. A morte de Candy é um reflexo daquela realidade, mas como a série é uma forma de arte, os entes queridos dela conseguem o que os das vítimas reais raramente conseguem: resolução.

Em vez de o funeral de Candy aparecer brevemente – os funerais eram comuns em meio à epidemia – os telespectadores e personagens são autorizados ao luto. O espírito de Candy visita Pray, Blanca, Lulu, e os pais dela, em uma aparição surpresa; absolvendo todos de culpa, confortando-os e os perdoando.

Candy pode falar por todas as mulheres que não conseguiram, cujos nomes não sabemos ou vamos esquecer rapidamente. A morte de Candy não é mais significativa do que a de Dana Martin ou Muhlaysia Booker ou Brooklyn Lindsey, mas como acompanhamos a vida de Candy, a morte dela humaniza ainda mais essas experiências; de certa forma, Candy morreu para que as histórias delas pudessem ser contadas.

E, ainda que lidemos com o luto, Pose não nos deixa afundar nele. O luto não é simples; ele é bagunçado, é complicado, ele pode ser feliz, ele pode enlouquecer. Candy foi uma pessoa difícil, então, seu legado é difícil, mas ela recebe uma graça após a morte que ela só almejou em sua existência diária. Isto é representado no lipsync do belo clássico de Stephanie Mills de 1980, “Never Knew Love Like This Before.”

Em uma cena de fantasia, repleta da mais pura alegria, Candy finalmente encontra seu lugar dentro da comunidade dos bailes e a glória que ela buscou tão desesperadamente.

Com uma morte difícil e uma tragédia familiar demais, Pose cumpriu a promessa de ser inspiradora e desafiadora. Ao fazê-lo, a série homenageou devidamente as centenas de pessoas trans e de gênero não-conforme globalmente que perderam suas vidas em um mundo indiferente à existência delas.

Artigo de Lester Fabian Brathwaite para o NewNowNext, traduzido por Leo Rodrigues para o QueerFeed.