Hoje é um dia muito especial para a música pop: a eterna princesa do pop Britney Spears completa 37 anos! Com 20 anos de carreira, Britney se tornou um ícone gay com hits como Toxic, Oops!… I Did It Again e o atemporal …Baby One More Time.

Aqui no QueerFeed, a gente já fez até o mapa astral da Britney. Ela é a princesa do pop desde os 17 anos, quando muito esperavam (ou temiam) que ela fosse desaparecer logo depois de ser coroada.

E, assim como muitas divas pop que vieram antes dela, Spears deve muito do seu sucesso contínuo a uma legião de homens gays que amadureceram na virada do milênio, contemplando uma diva digna de celebração.

Hoje, sua música permanece relevante em bares e boates gays, com muitas drags covers nos Estados Unidos, e já até participação em Will & Grace (que você bem sabe, nós também amamos!).

A pergunta que não quer calar é: o que atrai os gays à Britney Spears?

A pergunta, talvez, fosse mais fácil de responder lá atrás no início dos anos 2000. Com recordes de vendas de CDs, performances ao vivo arrasadoras, e o famigerado romance com Justin Timberlake, ela era uma presença fascinante na cena pop musical.

Para o fundador do Breathe Heavy, site de música que começou como blog dedicado a Spears em 2004, Jordan Miller, a cantora se aproveitou de sua incrível presença que o cativou quando criança.

“Seu poder de estrela era absurdo, e tudo o que ela fazia – suas apresentações icônicas, comerciais, a música… a música intocável – era uma combinação intoxicante”, disse.

Britney Spears no VMA 2001A liberação sexual que ela narrou ao longo dos anos foi reveladora. A cada single e álbum, ela demonstrava uma Britney mais sexual, menos pura. Foi a fórmula que muitas colegas de profissão seguiram, mas ainda havia algo mais subversivo, que fazia as pessoas se identificarem com ela, na estratégia de sua libertação sexual. Talvez foi a forma como ela permaneceu contida na metáfora de suas performances, dando aos gays da época do Disk MTV, um gostinho de diversos lados para uma mesma identidade.

No início de seu auge, Britney construiu sua carreira com singles chiclete perfeitos o rádio que flertavam com mensagens transgressivas sobre sexualidade. Mas havia sempre algo à espreita sob essa caracterização da princesa do pop. Como B. Pietras, que escreveu um artigo tocante (em inglês) sobre sua relação conflituosa com o ídolo pop para o BuzzFeed no ano passado, disse à VICE:

“O apelo de Britney para homens gays repousa na maneira como ela reúne essa sensação de sexualidade fortalecida com uma vulnerabilidade essencial. O videoclipe de ‘… Baby, One More Time’ é um exemplo perfeito – está cheio de todas essas imagens de colegial safado e, no entanto, a música é toda sobre a solidão ”.

Essa imagem de uma menina solitária presa dentro da fachada reluzente que ela projetou no mundo a seguiria através do que se tornou a era mais tumultuada de sua vida pessoal.

Em meio a escândalos e polêmicas em tabloides, e apesar do lançamento do que foi, sem dúvida, seu melhor álbum até agora (Blackout, de 2007), apenas seus fãs obstinados ficaram com ela.

“Nós assistimos uma mulher chegar ao fundo do poço”, lembrou Miller, “mas ela nunca se rendeu. Britney encontrou força dentro para se levantar e continuar ostentando o papel de estrela pop bombástica.”

O infame incidente da Britney careca, a performance do VMA com os olhos mortos, o pavoroso clipe de “Gimme More”: todos os sinais apontavam para um desastre iminente de fim de carreira, do tipo que Hollywood adora. Mas Spears resistiu. Sua perpétua insinuação de vulnerabilidade agora parecia sempre presente, e aqueles que viram um raio de luz em Britney agora se viam como seus cuidadores.

O exemplo mais infame veio no viral do YouTube “Leave Britney Alone!” (deixem a Britney em paz, em inglês), onde um fã gay com os olhos marejados atacou aqueles que importunavam sua adorada diva. Se posicionar pela Britney é suportar o mundo ao lado dela, e hoje há uma proteção ao relacionamento de seus fãs gays com a artista, o que os leva a desculpar sua última falha de vídeo ou performance ao vivo “blah”, como se sua mera existência continuasse sendo prova de sua tenacidade.

Onde outros ícones gays exalam autoconfiança, a frágil resiliência de Spears fez dela um modelo ainda mais fascinante, mais próximo de Judy Garland do que de Lady Gaga.

Britney SpearsEssa fragilidade é ainda mais complicada pela tutela de seu pai e advogado (o que continua a provocar dúvidas sobre ela poder ficar sozinha, como o New York Times indagou em 2016), mas desde seu primeiro álbum pós-colapso (Circus, de 2008), sua fragilidade tornou-se o alicerce sobre o qual a sua persona está. Ela cora e tropeça em entrevistas.

Em performances, somos encorajados a comprar a imagem de Spears como uma estrela pop cuja frase de assinatura (“it’s Britney, bitch!”) sugere uma ferocidade digna de comemoração e imitação. Mas, na realidade, essa ferocidade parece escassa agora. Sua frase mais memorável, de “Gimme More”, sempre pareceu um bordão, porque ao invés de um reflexo da agência de Britney, é oco – algo de que seus fãs podem se apropriar.

E esse vazio também pode ser um dos principais impulsionadores da adoração de seus fãs gays.

Afinal, a carreira de Spears às vezes parece um recipiente na qual nossas ideias culturais sobre estrelas pop e sua sexualidade podem ser projetadas. Por tudo o que sabemos sobre sua vida pessoal, a mãe “muito sem graça” de dois continua a ser uma figura ausente em nossa imaginação, e ela muda de colegial tímida para sedutora tóxica, de namoradeira a suburbana pervertida, não são exatamente o tipo de reinvenções convincentes e completas que Madonna dominou e Lady Gaga se apropriou.

Mas seus fãs gays ainda têm seu próprio jargão lúdico para sua universalidade, usando neologismos curiosos para se referir a eras específicas de Britney (Circusney, Gloryney) enquanto elogiam vários aspectos de sua estrela pop favorita.

Ela é Godney acima de tudo, mas ela também é Danceney quando ela nos lembra porque ela é uma grande performer, Fierceney quando ela está arrasando, e mesmo Starbucksney quando ela é vista em sua franquia favorita de café.

Todas essas Britneys falam sobre a variedade de personas que Spears pode incorporar, aparentemente num piscar de olhos. Ela apenas projeta infinitas possibilidades. Talvez seja por isso que Britney continua a encontrar um lugar em clubes gays em todo o mundo – ela é uma bola de espelhos reluzente, um reflexo fraturado daqueles homens na pista de dança de volta para si mesmos.