De Freddie Mercury à Rainha Anne, a temporada de grandes premiações será dominada por personagens queer interpretados por atores não-LGBT. Então, esse é o equivalente ao blackface (prática do século 19 em que atores brancos pintavam seus rostos com carvão para satirizar pessoas negras) da sexualidade – ou é simplesmente atuação?

É 1992. Um jovem ator chamado Will Smith, já um famoso rapper e astro de série de comédia, está nervoso sobre seu primeiro grande papel no cinema, como um vigarista gay em Seis Graus de Separação. É um papel que exige que ele beije um homem, então ele chama seu amigo Denzel Washington, que diz a ele: “Se você não se sente confortável com isso, não faça isso.” (Isso é a lembrança de Denzel. Outras pessoas dizem que ele disse com todas as letras: “Você não vai beijar homem nenhum”.) No filme finalizado, não há beijo – pelo menos não à vista da câmera – e Smith depois diz que se arrepende de não dar seu tudo por medo de que isso prejudicaria sua carreira.

Como os tempos mudam. Agora, um ator heterossexual de sucesso pode renunciar a papéis gays por uma razão totalmente diferente e aparentemente nobre.

Darren Criss recebe Globo de Ouro 2019

No último fim de semana, Darren Criss levou para casa um Globo de Ouro por sua atuação como o assassino em série gay Andrew Cunanan em American Crime Story: O Assassinato de Gianni Versace. Quando ele conseguiu um Emmy pelo mesmo papel ano passado, ele anunciou que seria seu último papel gay.

Longe de ser homofóbico, essa foi sua tentativa de abrir oportunidades para os colegas. Tendo interpretado vários personagens LGBT, ele estava empenhado em “garantir que eu não seria mais um garoto hétero assumindo o papel de gay”.

Sua decisão surge em um momento em que há uma onda de opiniões propondo que tais partes devem ser dadas apenas aos atores que se identificam como LGBT. Algumas vozes no debate, compreensivelmente agitadas pela notícia de que Jack Whitehall foi escalado para ser gay em um acampamento no filme da Disney Jungle Cruise (Cruzeiro na Selva, em tradução livre), usaram até mesmo o termo “gayface” para descrever atores heterossexuais que ganham dinheiro, ecoando o “blackface” de Laurence Olivier em Otelo ou Alec Guinness em Passagem Para A Índia.

A temporada de premiações deste ano seria muito diferente sob tais restrições. Não haveria Olivia Colman, Rachel Weisz ou Emma Stone, todas as quais interpretam personagens bissexuais em A Favorita. Nem Weisz e Rachel McAdams seriam autorizados a atuar como amantes em Desobediência. Seria adeus a Rami Malek como Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody e adeus a Melissa McCarthy e Richard E. Grant em Poderia Me Perdoar? Ben Whishaw ainda teria permissão para interpretar Norman Scott em A Very English Scandal, pelo qual ele também ganhou um Globo de Ouro, mas seu co-protagonista, Hugh Grant, precisaria ser substituído como o MP Jeremy Thorpe, amante de Scott que tentou matá-lo.

Rachel Weisz e Rachel McAdams em cena romântica do filme Desobediência
Rachel Weisz e Rachel McAdams em Desobediência

Haveria atores LGBT suficientes – aliás, atores brilhantes, LGBT assumidos – para preencher todos esses papéis vagos?

Esse dilema só poderia ter surgido em um clima onde há uma gama de papéis LGBT e uma ânsia de ver a diversidade na tela. Mas seria insensato proibir a função desempenhada pela interpretação, imaginação e habilidade; o nome é atuação por um motivo.

Além disso, parece impraticável dizer que quando um papel LGBT está em aberto, apenas os assumidos devem ter uma oportunidade. Acabaria funcionando como uma espécie de saída do armário por padrão: os atores não assumidos agora precisariam entrar na sala de audição tendo algo a declarar.

Chris New com Tom Cullen em cena do filme Weekend

E certamente encorajaria a fraude de categoria. Quanto tempo até Hollywood sofrer um escândalo parecido com o de Rachel Dolezal (que se passou por negra até ser “desmascarada” como branca), com atores heterossexuais se fazendo passar por gays?

Eu prevejo fotos de paparazzi de lésbicas assumidas em rolos com homens, provocando manchetes de tabloides antes inimagináveis: “Ator vencedor do Oscar em choque hétero!”

Andrew Haigh, o roteirista e diretor da história de amor gay Weekend e da série da HBO, Looking, diz que a sexualidade é, às vezes, uma consideração no processo de seleção.

“Para Weekend, e especialmente Looking, eu queria o maior número possível de atores gays”, lembra ele. “O mesmo vale para a equipe. Trabalhar com material LGBT com pessoas LGBT é libertador. Mas também é sobre encontrar o ator certo para um papel. A sexualidade de um personagem não é sua característica definidora. Identidades são complexas”, afirmou Haigh.

Cena da série Looking, da HBO
Cena da série Looking, da HBO

“Tom Cullen em Weekend ou Raul Castillo em Looking podem não ser gays na vida real, mas eles entenderam completamente e se relacionaram com a psicologia de seus papéis. Além disso, o que se esquece neste debate é o quão importante é o roteiro. Não importa se um ator é LGBT ou não, se o roteiro não parecer autêntico, é improvável que seja bom”, continua.

O ator Chris New, que estrelou ao lado de Cullen em Weekend, sente que foi rotulado por sua sexualidade. “Eu sou conhecido como um ator gay”, diz ele. “Mas eu não sou – ou, pelo menos, não sou apenas isso. Eu sou um ator, sim, e na minha vida pessoal eu descobri principalmente que os homens me atraem. Eu não vejo isso, ou qualquer outro aspecto singular da minha identidade, como definição minha ou como algo com que eu gostaria de negociar.”

“No meu trabalho, eu estou cada vez mais autorizado a me envolver em minha cultura somente quando esse envolvimento se concentra em ser gay. Me assumir não fez nada além de restringir minha carreira. No atual clima cultural, sou convidado a participar apenas com base em minha suposta opressão. Nada mais é exigido de mim. Eu moro em um gueto cultural”, completa New.

Sua resposta foi drástica. “Qualquer papel em que a sexualidade do personagem é sua característica definidora eu recuso. O que significa que eu não trabalho muito. Ou, pelo menos, nem de longe tanto quanto eu gostaria. Como ele se sente vendo um ator hétero atuando fora de sua própria sexualidade? “Eu realmente não me importo de jeito nenhum. Eu só espero que eles sejam os melhores atores. E eu silenciosamente desejo que o papel possa ser definido como algo um pouco mais do que apenas gay. ”

Mas como é para os que estão do outro lado da divisão? Dan Krikler, um ator hétero, concorda em ser a voz da comunidade heterossexual para este artigo. A distinção tornou-se relevante quando ele interpretou um homem gay no ano passado, na estreia europeia em Londres da peça explosiva Homos, Or Everyone in America, de Jordan Seavey. “Como acontece com qualquer forma de atuação, você substitui as coisas que não são familiares com as que são”, diz ele.

Ben Whishaw, ganhador do Globo de Ouro, com Hugh Grant em A Very English Scandal
Ben Whishaw, ganhador do Globo de Ouro, com Hugh Grant em A Very English Scandal

“Ao interpretar alguém que é atraído por rapazes, não é um grande salto substituir os sentimentos que geralmente tenho pelas mulheres. Havia outras coisas que eram novas para mim, então eu tive que perguntar a uma colega gay: ‘Como você se sente de mãos dadas com um homem em público?’ Isso não passa pela sua cabeça como parte de um casal heterossexual. Mas é o tipo de pesquisa que você faria com qualquer papel que não combina exatamente com você.”

“Parece ridículo apenas fazer papéis dentro de sua própria experiência. Isso iria contra tudo que alguém já aprendeu sobre atuar”

Isso pode expandir as oportunidades para os atores LGBT, mas a ideia de escalar apenas pessoas dentro do espectro pode apenas inibir o escopo da atuação em geral. Cate Blanchett, que interpretou uma lésbica em Carol e Bob Dylan em Não Estou Lá, prometeram “lutar até a morte pelo direito de suspender a descrença e interpretar papéis além da minha experiência”.

Para seu papel, Seavey não tem nenhum problema com isso. “Eu costumava sentir que uma pessoa hétero não saberia, em um nível molecular, a experiência exata e particular de ser queer“, diz ele. “Mas então um ator hétero interpretou um personagem gay em uma de minhas peças e, sendo um ator brilhante, fez uma performance brilhante. Ele era o ator certo para o papel – isso é tudo o que importava. Seria um mau uso do meu tempo e energia pensar em reclamar.”

Seavey vê a afirmação de Darren Criss como sincera, talvez desorientada. “A escolha dele é dele, embora eu não ache que um ator heterossexual interpretando um papel gay esteja ‘assumindo’ o papel de um ator gay.”

“O que seria bom era se atores gays fossem escolhidos com mais frequência, especialmente em papéis diretos, e se o cinema e a televisão apresentassem personagens queer de forma mais proeminente. Paridade e igualdade são mais importantes ”.

Darren Criss em O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story
Darren Criss em O Assassinato de Gianni Versace: American Crime Story

Haigh acha que o anúncio de Criss pode até ter melhorado suas perspectivas. “Suas razões parecem sinceras e genuínas”, diz ele, “mas o mais engraçado é que isso provavelmente beneficiou sua carreira lembrando a todos que ele é hétero. É outra causa de frustração para os atores LGBT: se você é um ator hétero, você é frequentemente aplaudido por interpretar gay, parabenizado por sua coragem, elogiado por sua habilidade em realizar um feito tão complicado. Você raramente vê um ator gay sendo aplaudido por fazer papel de hétero. E se um ator gay faz papel de gay, muitas vezes há a suposição de que nenhuma atuação foi realmente necessária em primeiro lugar ”.

A rota mais sábia é certamente a escolhida por Lucas Hedges, o ator de 22 anos que interpreta um jovem gay em terapia de conversão no drama Boy Erased: Uma Verdade Anulada. “Eu me reconheço como existente nesse espectro”, disse Hedges no ano passado. “Não totalmente hétero, mas também não gay e não necessariamente bissexual.”

Seavey considera a nova geração de atores como encorajadora. “Se você está acompanhando a [geração] jovem Hollywood, notará que a sexualidade está impedindo menos atores”, observa ele. “Eles estão aqui, são queer – ou pelo menos usam moda fluida no tapete vermelho – e esperamos que o mundo finalmente esteja se acostumando com isso”.

Este artigo é do The Guardian.