Se você é daqueles que bate no peito com o maior orgulho de ser assumido, de ter a mente aberta e ser livre de preconceitos, você deve muito às pessoas que deram a cara a tapa nos anos 80. E assisir a “Paris is Burning” é obrigatório

Paris is Burning: a real origem da cultura LGBT contemporâneaNova York, 1987.

O cenário era altamente conservador, como você deve imaginar. Pessoas brancas, hétero, “de bem” eram as que tin
ham seu espaço na sociedade. O documentário “Paris is Burning” se passa na comunidade LGBT negra da periferia da atual capital do mundo.

Nos primeiros minutos, a reação é pensar que o filme, de 1990, só vai servir pra rirmos dos penteados e roupas da época. O engano é ainda maior quando pensamos que tudo não vai passar de um documentário água com açúcar sobre uma boate nova-iorquina.

Tudo começa a tomar uma proporção muito maior dentro de você, quando percebe que aquele grupo de gays, travestis e transexuais marginalizados foram precursores de um movimento, a fonte de onde artistas contemporâneos como Madonna, Azalea Banks e até RuPaul beberam.

Não, a Madonna não inventou o voguing, o RuPaul não inventou as expressões que nós conhecemos, como realness, shade, work category is…, e muito menos a Lady Gaga inventou a expressão ‘House of’ para instituições de moda.

Paris is Burning era o nome de um clube em Nova York onde aconteciam os bailes (balls). E, num cenário onde a periferia tinha que lidar com a falta de oportunidades, racismo, homofobia, o início da onda da AIDS, as pessoas queriam ter seu refúgio.

Vendo e se espelhando no que tinha destaque nas revistas e TVs, os concursos organizados ali eram a maior oportunidade daquelas pessoas sentirem como era ser ricos e famosos. Alguns mal tinham o que comer, casas, mas roubavam roupas para terem o que usar nos bailes.

Paris is Burning: a real origem da cultura LGBT contemporânea“No Paris is Burning, você se sente 100% certo em ser gay”.

As pessoas faziam mais pela alegria, pela fama, do que pelo dinheiro. “É uma onda. Uma onda boa, viciante também, mas uma onda que não fere ninguém.”

É um soco no estômago ver pelo que as pessoas em outras partes do mundo, em outras épocas, tiveram que passar para que, hoje, nós pudéssemos viver com mais liberdade, mesmo que estejamos longe do cenário perfeito.

As pessoas que o filme acompanha contam que, nas décadas de 50 e 60, as drag queens queriam se parecer com as vedetes de Las Vegas, com plumas, penas e estruturas imensas. À medida que os anos 70 passaram, elas passaram a querer parecer com estrelas de cinema. Nos anos 80, abordados pelo filme, elas queriam o visual de modelos. Isso porque nem todas se encaixariam nos padrões.

Category is…

Como consequência, os concursos passaram a ter categorias, para que todos pudessem ser incluídos. Todos queriam ser famosos, ser aplaudidos.

Os concursos elegiam desde roupas esportivas para inverno, melhor corpo, menino de escola, até alta costura, moda militar. Isso, levando em consideração o que aquelas pessoas da periferia podiam comprar (ou roubar).

É um filme que faz a gente abrir a mente para os padrões que são diferentes do que somos acostumados. Quebra nossos paradigmas. Derruba os preconceitos que até as pessoas de mente mais aberta nem sabiam que tinham.

Muitas daquelas pessoas se prostituíam para conseguir suas roupas para o baile, suas fantasias.

Paris is Burning: a real origem da cultura LGBT contemporâneaRealness

O filme explica realness como saber se misturar. Enganar o olho destreinado. É parecer uma mulher (ou homem) real. Enquanto ser drag é como uma sátira, realness é como ser capaz de voltar ao armário.

Shade

O shade que nós usamos tão livremente hoje em dia também já era amplamente usado naquela época. A ideia do shade é que os insultos não precisem ser verbalmente ditos. Só que, originalmente, isso só vale para semelhantes. Por exemplo, se você e o seu ‘oponente’ são viados, não adianta chamá-lo do mesmo. Você não consegue ofendê-lo.

Paris is Burning: a real origem da cultura LGBT contemporâneaVogue

Já os movimentos popularizados pela rainha do pop também surgiram como uma forma de jogar shade. É como uma luta não-verbal. Em vez de discutir, fazia-se um duelo entre os ‘oponentes’. Quem dançava melhor, naturalmente jogava shade no outro. E o nome vem da revista justamente porque as poses eram imitadas às da revista na época.

House of…

Numa vertente um pouco mais pesada do documentário, a gente descobre que muitas daquelas pessoas, tiveram histórias muito turbulentas. Muitos foram expulsos de casa, abnegados de suas famílias, por serem fiéis a quem eram. Grande parte delas eram pessoas rejeitadas. Vemos crianças de 15 anos vivendo com amigos, sem família, vivendo com amigos.

Algumas das drags que fizeram seus nomes e sua fama em anos anteriores, acolhiam esses jovens. Se tornavam sua família, construindo seu legado. Dessa forma, elas desenvolviam suas casas. As houses of. Por exemplo, Angie Xtravaganza, mãe da House of Xtravaganza.

Paris is Burning: a real origem da cultura LGBT contemporâneaAngie acolhia jovens gays, bi, trans renegados e eles recebiam seu ‘sobrenome’. No filme, acompanhamos as histórias e vemos citações a Venus Xtravaganza, Hector Xtravaganza, entre outros. Essa passava a se tornar a ideia de lar para essas pessoas. Conhecemos integrantes da House of Labeija, House of Ninja, House of Pendavis…

“Tudo foi tirado da gente e, ainda assim, arrumamos um jeito de sobreviver”

As histórias abordadas em Paris is Burning fazem a gente dar valor à realidade em que vivemos hoje. Ao desenvolvimento que nós nem tivemos o trabalho de conquistar.

Aparentemente, o documentário quase foi indicado ao Oscar na época, mas devido ao preconceito com o tema gay enfrentado naqueles anos, acabou não acontecendo.

 

Assista Paris is Burning legendado: