Após a Rebelião de Stonewall, em 1969, diversas cidades começaram a receber protestos pelos direitos LGBTQ no mundo.

No Brasil, o primeiro jornal homossexual do Brasil, o Lampião da Esquina, circulou entre 1978 e 1981. Ele marcou o início do movimento brasileiro que levou à fundação do grupo Somos – Grupo de Afirmação Homossexual.

O jornal buscava discutir, de forma bem humorada, temas relacionados à homossexualidade, política, feminismo, questões raciais e de outras minorias, causas que eram vistas pela política como sem importância.

O jornal denunciava abusos cometidos pela ditadura militar contra pessoas LGBTQ, como foi o caso do jornalista Celso Curi, autor da primeira coluna gay do jornalismo brasileiro, a Coluna do Meio.

Curi foi processado e demitido acusado de “ofender a moral e os bons costumes”. Soa familiar?

O jornal também ganhou notoriedade pela cobertura das prisões arbitrárias de mulheres lésbicas em 1980, pela “Operação Sapatão”, comandada pelo delegado José Wilson Richetti, conhecido como o terror das travestis.

Em maio de 1980, Richetti deflagrou a “Operação Limpeza”, com o propósito de prender homossexuais, travestis e prostitutas no centro de São Paulo. Mais de 1.500 pessoas foram detidas.

Naquele ano, cerca de mil gays, lésbicas, travestis e prostitutas se uniram na frente do Teatro Municipal de São Paulo e marcharam pelas ruas do centro contra a violência policial, sob a palavra de ordem:

“Abaixo a repressão, mais amor e mais tesão”.

Na época, artistas que desafiaram a censura da ditadura, como Odair José, lançavam músicas que cantavam o amor entre iguais. Ney Matogrosso também faz parte dessa memória tão importante pela luta LGBT, contrariando padrões de comportamento, com seu figurino andrógino e trejeitos femininos.

Se hoje no Brasil existe espaço para amarmos Pabllo Vittar, Gloria Groove, Jhonny Hooker, Liniker, Linn da Quebrada, entre tantos outros, que fazem arte sendo exatamente como são, é porque outros grandes artistas abriram caminhos.

Mesmo não levantando abertamente a bandeira da causa LGBTQ, elas endereçaram questões consideradas tabus na época às massas. Roberta Close, modelo intersexo, considerada ícone de feminilidade nos anos 80, também teve seu importante papel.

Em 1983, as lésbicas que frequentavam o Ferro’s Bar, um extinto bar no centro de São Paulo, lançaram um manifesto pelos direitos das lésbicas, conhecido como o Levante do Ferro’s Bar. Dias antes, o dono do lugar havia chamado a polícia e proibido as mulheres de vender ali uma publicação chamada “ChanacomChana”, considerada um atentado aos bons costumes.

Mas é somente na segunda metade dos anos 1990 que o movimento LGBTQ brasileiro começa a tomar corpo como conhecemos hoje.

A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo – hoje a maior do mundo – surge apenas em 1997, levando cerca de 2 mil pessoas pela Avenida Paulista, após um ensaio um ano antes, durante uma pequena manifestação na Praça Roosevelt, no centro. Em 1996, o Rio de Janeiro realizava a sua primeira caminhada.

Assim como as demais marchas, a Parada de São Paulo é inspirada na coragem daquelas pessoas que se revoltaram contra a ordem ideológica, econômica, política e legal imposta por uma sociedade e um Estado de uma época.

Como repetia a travesti negra Marsha P. Johnson, considerada a pessoa que arremessou a primeira pedra contra a fachada do Stonewall, dando início à revolta, “não há orgulho para alguns sem a libertação de todos nós”.

É fundamental que tenhamos orgulho da nossa história de luta e conquistas. Ainda há um longo caminho a se percorrer, mas também temos muito o que comemorar.

Foto: APOGLBT SP

A disponibilização do tratamento de HIV/Aids no SUS, em 1996 e ampliado em 2013; união estável homoafetiva, em 2011; a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) a favor do casamento civil homoafetivo, em 2013; a adoção de criança por casal do mesmo sexo, em 2015; o uso do nome social na educação básica reconhecida pelo Ministério da Educação, em 2017; a resolução que definiu o uso do nome social de travestis e transexuais nos registros escolares; a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) garantindo o direito à inclusão do nome social no cadastro de eleitores; a retificação de nome e gênero na certidão de nascimento no cartório, sem a necessidade de advogado nem apresentação de qualquer laudo ou aval de juízes ou promotores de justiça. Essas últimas, todas em 2018.

A mais recente é a criminalização da homofobia pelo STF há poucos dias.

Por isso, nossa luta, nossas conquistas e nossas vidas são dignas de muito orgulho!

As informações são da APOGLBT, organizadora da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. A foto do destaque do artigo é da Folha.