É um dia chuvoso de outubro. Me pergunto se o ônibus vai demorar muito a passar, porque não quero molhar o guarda-chuva antes de entrar no ônibus. É horrível ter que lidar com guarda-chuva molhado dentro no ônibus. A gente fica meio sem lugar. Com receio de molhar a si e aos outros.

O ônibus chega rápido. Um alívio, apesar de parecer que a chuva não engrossaria. As pessoas se aglomeram pra subir e algumas, inclusive, entram na minha frente. Detesto gente assim. Apesar disso, o ônibus está vazio e tem vários lugares para sentar.

Naturalmente, enquanto escolho meu assento, corro meus olhos por cada uma das pessoas que farão a viagem até seus trabalhos ou compromissos comigo. Ao que me preparo pra sentar no lugar escolhido, na janela, meu olhar pousa sobre um par de penetrantes olhos azuis. Olhos que, percebo, me observam desde que entrei.

Me sinto numa dualidade terrível. Sento-me onde escolhi ou me aproximo dele, que tem um assento vago ao seu lado? Nessa altura, por ter levado mais do que três segundos para me sentar na única janela vaga da condução, os olhos daquele cara lindo, com barba por fazer e impecavelmente arrumado, já não são mais os únicos a olharem pra mim.

Decido por me sentar onde já havia decidido, pra não levantar suspeita. É engraçado, né? A gente tem a impressão de que tá fazendo alguma coisa errada quando algo assim acontece. Mas enfim, escolhi não usar a oportunidade pra me aproximar de alguém que me despertou tanto interesse. Interesse mútuo, aparentemente.

Aproveito a situação e me inspiro a começar a escrever esse artigo. No celular mesmo, cheio de erros ortográficos. “Depois eu corrijo”, eu penso.

Antes de descer, ainda faço questão de conferir se o interesse não é coisa da minha cabeça, e resolvo ver se sou retribuído novamente. Caminho para o fundo do ônibus, rumo à porta e já certeiro, faço questão de olhar novamente pra guardar na memória aquele olhar que tanto mexeu comigo. E, não, não é coisa da minha cabeça! Infelizmente, chego ao meu ponto. Ele continua sua viagem.

Mas, por sorte, não foi a primeira vez que isso me aconteceu. Foi a segunda. Com o mesmo par de olhos azuis. E já me decidi: da próxima, sento do lado dele, mesmo que pra seguir a viagem em silêncio até descer. Um passo de cada vez, né? ♥