Intersexualidade, intersexo, trans, não-binário, assexual, pansexual…

São tantas as denominações e rótulos debaixo do guarda-chuva LGBTQIA+, que a gente frequentemente se pergunta sobre que monte de letra é essa, o que significa e até mesmo, quais letras acabam ficando de fora quando a gente está “ocupado demais” para se referir a todo mundo e nos reduzimos a LGBT apenas.

Então, de tempos em tempos, vamos trazer uns artigos mais informativos para que a gente não deixe sempre de se informar melhor sobre todas as pessoas que estão debaixo desse guarda-chuvão que é nossa comunidade!

Porque a gente sabe que, quanto mais unidos, mais barulho a gente faz!

Intersexo

Os seres humanos podem ser de dois sexos: masculino e feminino. Se referem a uma questão estritamente biológica, anatômica do indivíduo. É a separação da biologia entre macho e fêmea.

Já o gênero tem a ver com o conjunto de significados culturais associado a um ou outro sexo. Remete aos papéis sexuais e sociais de cada sexo.

Uma pessoa intersexo é aquela que a medicina não consegue identificar no nascimento nem como homem, nem como mulher, uma vez que seu corpo não é propriamente masculino nem feminino.

A noção de intersexualidade pode ser aplicada a indivíduos que apresentam alterações nos cromossomos, hormônios, ou outros aspectos, e, por isso, não é fácil determinar se são homens ou mulheres.

Ou seja, essas alterações não são necessariamente anatômicas ou visíveis.

Antigamente, as pessoas intersexo eram chamadas de “hermafroditas”. Hoje em dia, porém, ativistas consideram o termo pejorativo. E a gente, como é bem informado, e sabe como é se sentir mal por ser chamado por nomes pejorativos, vai passar a usar o termo socialmente aceito, né? Muito que bem.

A dificuldade em conceituar o que é intersexualidade está no fato de que não existe clareza definitiva sobre isso.

Um em cada 100 nascimentos apresenta algum nível de ambiguidade sexual. Já em 1.000 nascimentos, um ou dois casos – acredita-se que – necessitam de cirurgia para diferenciação de gênero.

Pense que a categoria da intersexualidade foi criada pela sociedade (assim como masculino e feminino), enquanto as variações biológicas da natureza são muitas.

Mas como assim?

É como o espectro de cores: da mesma forma que na natureza existem espectros de cores diferentes, também existem espectros sexuais. Existem diferentes tons de vermelho, por exemplo. A necessidade do ser humano de categorizar surge quando precisamos distinguir um tom vermelho-sangue de um tom vermelho-alaranjado, por exemplo.

Só que, à medida que o tom de cor se aproxima do laranja, é inevitável que chegue-se a um ponto em que temos dificuldade de definir se a cor é laranja, vermelha, laranja-avermelhado ou vermelho-alaranjado.

Da mesma forma, a natureza apresenta espectros sexuais. Todos os órgãos que definem o sexo – seios, pênis, clitóris, gônadas, vagina – variam em tamanho, formato e morfologia.

Porém, a cultura humana categoriza macho, fêmea e, em alguns casos, intersexo para simplificar as interações sociais.

A natureza não define onde a categoria macho termina e onde começa o intersexo, e onde termina o intersexo e começa a categoria fêmea. É a sociedade que decide através da designação do gênero no nascimento.

São pessoas (geralmente médicos) que decidem de que tamanho o pênis precisa ser, qual a combinação de partes que a pessoa deve ter para contá-la como intersexo.

Mesmo essas atribuições variam entre médicos. Alguns acreditam que precisa-se ter uma genitália ambígua, outros que o cérebro precisa ser exposto a uma mistura atípica de hormônios antes do nascimento. Alguns também acreditam que é necessário ter tecido testicular e ovariano para ser categorizado como intersexo.

Então pessoas intersexo são pessoas trans?

Não. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Pessoas trans são aquelas cuja identidade de gênero é diferente da atribuída ao nascimento. Já intersexo se refere às características anatômicas sexuais, e não ao sentimento interno de identidade.

As características sexuais físicas não têm nada a ver com como as pessoas consideram sua identidade de gênero, ou por quem sentem atração.

Uma pessoa intersexo, aliás, pode se identificar como trans, mas são coisas diferentes porque sexo e gênero são coisas diferentes. Além disso, a pessoa pode ser hétero, gay, lésbica, bissexual ou assexual, porque agora estamos falando de sexualidade.

O intersexo na história

Até o século XIX, a maioria das pessoas com condições intersexo passavam sem nenhum tipo de reconhecimento ou atenção religiosa, legal ou médica. Poucos casos por ano chegavam às autoridades e organizações.

Pessoas que nasciam sob o intersexo recebiam um gênero designado por parteiras, avós, ou idosos locais e deviam manter relações com o “sexo oposto”. Quando essa regra era violada, essas pessoas eram punidas por meios violentos ou até a morte.

Porém, com o passar do tempo, os profissionais da medicina começaram a perceber que essas anatomias sexuais fora do comum eram, na verdade, até bem comuns. Eram centenas de casos de “hermafroditismo” e “pseudo-hermafroditismo” reportados todo os anos.

Como tratava-se de uma época bastante conservadora, era de interesse desses profissionais que se mantivesse uma fronteira sexual muito bem definida para combater os fenômenos da “homossexualidade aberta” e a ascensão do feminismo.

Isso ganha mais notoriedade nos estudos da década de 1980 com a utilização do termo “hermafroditismo psíquico” para se referir aos homens gays.

Também afirmava-se “cientificamente” que a educação de universidade “masculinizava” mulheres. Por isso, especialistas convencionaram um sistema em que todas as pessoas seriam classificadas como “verdadeiramente homem” ou “verdadeiramente mulher”, independentemente da realidade natural da anatomia intersexo.

Foi criado um padrão arbitrário baseado no tecido gonadal, que até hoje tem espaço em muitos textos médicos. Uma pessoa com anatomia sexual fora do padrão e tecido ovariano é classificada como “fêmea pseudo-hermafrodita”. Já uma pessoa com anatomia fora do padrão e com tecido testicular é um “macho psudo-hermafrodita”. Se o indivíduo possui ambos tecidos ovariano e testicular, é classificado como “verdadeiro hermafrodita”.

Os profissionais de medicina da época gostavam particularmente dessa classificação porque a única forma de se certificar o “hermafroditismo verdadeiro” era após a morte. Logo, as informações sobre intersexualidade vinha apenas de exames póstumos.

Todas as pessoas intersexo vivas eram classificadas sob “macho” ou “fêmea”, sendo exigidas que vivessem socialmente e sexual sob seu gênero designado.

Durante a década de 1920, cientistas que estudavam a intersexualidade desenvolveram a noção de gênero separada da anatomia sexual, começando a oferecer “correções” cirúrgicas para trazer o sexo biológico em linha com o gênero designado.

Isso aproximou as linhas teóricas e cirúrgicas, porém com a mesma motivação: manter a categorização sexual binária, entre “macho” e “fêmea”.

Durante a segunda metade do século 19, poucos pacientes intersexo já começavam a fazer cirurgias e alguns cirurgiões já ofereciam uma reconstrução genital, porém a maioria eram feitas por motivos estéticos e solicitados por adultos.

Pacientes e cirurgiões costumavam evitar cirurgias eletivas por razões de segurança. Também não se acreditava que pessoas intersexo não eram saudáveis sem cirurgia, ou tentavam suicídio, ou não viviam bem socialmente.

Aliás, o psicólogo John Money estudou adultos intersexos e descobriu, antes da era da intervenção cirúrgica estética para intersexos, que essa parcela da população tinha uma taxa menor de psicopatologias que o restante das pessoas.

Em meados dos anos 50, a Universidade de Johns Hopkins desenvolveu um centro médico com foco a eliminar a intersexualidade durante a infância com um modelo que ficou conhecido como “desenvolvimento de gênero ótimo”.

O objetivo era alinhar o corpo, criação e mente de crianças intersexo para se alinhar a uma identidade de gênero “normal” (dentro da norma).

Apesar dos textos dessa época defenderem oferecer um suporte psicológico consistente, muitos pacientes eram enganados e quase não recebiam esse acompanhamento. Acabava que os médicos tomavam as decisões para os pacientes.

Em um caso que ficou famoso como “João/Joana”, David Reimer nasceu como gêmeo idêntico, não intersexo, em 1965. Durante uma cirurgia de circuncisão, o médico acidentalmente queimou o pênis de 5 meses de David.

Os pais do garoto consultaram com o time do modelo da Universidade de Hopkins, e Money recomentou que eles mudassem a genitália e o gênero da criança, criando-a como menina.

Por décadas, Money promoveu o resultado como bem-sucedido porque David havia, em tese, “virado uma garota normal”, heterossexual, que “se identificava de forma feminina”. Na verdade, anos depois os pais revelaram que David reassumiu seu papel de gênero como homem, porque nunca se sentiu verdadeiramente mulher.

Por anos, esse método de “criação-acima-da-natureza” foi aceito, até que em 1993, a bióloga feminista Anne Fausto-Sterling publicou artigos no The Science e The New York Times expondo o fato de que a intersexualidade existe.

A partir daí foram fundadas a Sociedade Intersexo da América do norte, e a Organização Intesexo Internacional.

Tratamentos hoje em dia

No Brasil, estima-se que um em cada 1.200 nascidos vivos no Brasil sejam intersexo. É um total estimado de 167 mil pessoas.

Hoje em dia, a medicina considera dois tipos de tratamentos possíveis, dependendo da causa do intersexo:

Existe o modelo centrado no sigilo e cirurgia, no qual realiza-se a cirurgia e medica-se o bebê ainda nos primeiros 24 meses de vida;

Também há o modelo centrado no paciente, no qual espera-se o paciente crescer para que ele decida o que prefere fazer.

O tratamento moderno envolve psicoterapia para o indivíduo e para sua família, cirurgia de redesignação sexual, cirurgia plástica e tratamentos hormonais.

Enfim, a impressão que dá é que algo tão completo e com tantas nuances está longe de ser um assunto esgotado de discussões, o que é maravilhoso! Ninguém é tão simples que pode ser resumido à sua genitália.

A ideia deste post é trazer à luz (mesmo que só um pouquinho) algo que a sociedade ainda tenta deixar obscuro. Mas com informação, a gente consegue entender que o mundo é feito de diversidades!

Fontes: Conceitos.com, Orientando.org, Sociedade Intersexo da América do Norte, BioMania, O Tempo.