Quem é o seu frio na barriga?

— Reaparecerei.

Me peguei rindo à toa, olhando pra tela do computador com uma música presa no repeat do Spotify. Justo eu que havia jurado pra mim mesmo que agora eu só iria me deixar envolver ou conhecer alguém se, literalmente, tropeçasse na rua. Mas daí aquele nosso velho conhecido em comum veio falar de ti. A vida é cômica. Eu já estava quase preparando um questionário de avaliação de fornecedor, com meus dados e todas as perguntas clichês de um tinder. Seria algo como: “Oi, tudo bem? Tudo e você? Tudo, ó lê isso aqui e depois conversamos”.

A minha paciência tem durado menos do que o salário na conta.

Acho que chega um momento na vida em que as coisas ficam meio prolixas. Palavras demais pra falar pouco. Você vai de algum aplicativo qualquer para aquele comunicador instantâneo. passa um tempo e? Morre ali. É sempre o mesmo papo, as mesmas perguntas.

Parece um ctrl c + ctrl v da vida real e isso cansa.

Mas daí você apareceu. Você tinha que aparecer, né? Foi como um complô cósmico, um rearranjo da vida para que o teu caminho cruzasse com o meu. E eu fui pego desprevenido, de guarda baixa, não deu tempo de pensar.

Mas eu mudei bastante nos últimos tempos e não caio mais antes do tiro. Nem fico sofrendo por antecipação. Nesse acúmulo de sentimentos eu sou a represa emocional, mas aos poucos as comportas tem-se aberto. Ainda não adquiri novamente a minha antiga capacidade de chorar com coisas do cotidiano, mas as palavras voltaram a jorrar na minha mente. Me peguei sorrindo pra tela do computador enquanto você estava focado no trabalho. Ao longo desses dias foi crescendo uma admiração tão incrível que sei que durará muito tempo. Não estou afirmando que haverá um relacionamento ou algo do gênero, mas admiração não vai ser algo que escapa pelos dedos. Ela tem base e é sólida. E a cada bom dia o meu céu vai se abrindo e as nuvens vão se dissipando.

É um processo lento de quem já tomou mais porradas na cara do que lutador fracassado de UFC.

Mas a cabeça tá erguida. Sempre olhando à frente e confiante no futuro. Sozinho? Sim, muito bem acompanhado de mim mesmo, esperando alguém pra me fazer transbordar enquanto eu vou me completando a cada dia. Sentindo aquele frio gostoso na barriga a cada mensagem despretensiosa que me pega completamente de surpresa. Você é o sorriso que completa o meu, a mão entrelaçada na mesa daquele café que fomos no primeiro encontro. Ainda te conheço muito pouco para fazer afirmações absurdas. Vou deixando que a vida seja essa montanha sem sentido enquanto vamos nos conhecendo melhor nos pequenos detalhes. Sem expectativas, deixando que os pés deem um passo por vez, ainda que tropeçar faça parte do percurso.

Acho que eu tropecei em você.

Sobre o autor do artigo:
Carlo Enrico é paulistano, talentosíssimo, e escreve sempre em seu blog pessoal, 27 bobagens.

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