A cantora britânica Lily Allen está longe de ser uma grande pop star a nível mundial, mas até hoje, deixou grandes marcas na música com canções como Fuck You, The Fear, Smile e o magnífico cover de Somewhere Only We Know do Keane.

Sua voz doce, com instrumentais dignos de filmes animados fizeram eu, pessoalmente, me apaixonar por sua persona. Sabe? Daquela que manda eu me foder, mas com um sorriso no rosto.

Apesar de gostar, eu não acompanhei de perto sua história e, quando seu último álbum No Shame foi lançado em junho de 2018, eu admito que não gostei. A sonoridade era diferente da que eu gostava, estava experimental demais. Logo abandonei a obra depois da primeira ouvida.

O livro My Thoughts Exactly

Devo ter ouvido boatos de que Lily Allen lançaria um livro e, logo que saiu em setembro de 2018, meu amigo Filipe Gazen conseguiu a versão em audiobook narrada pela própria Lily Allen e me infernizou para ouvir, e eu acabei cedendo.

Foi um caminho sem volta.

“Quando mulheres contam suas histórias, alto, claramente e honestamente, as coisas começam a mudar – para melhor…”, Lily postou no Twitter.

My Thoughts Exactly (Meus pensamentos, exatamente, em tradução livre) é literalmente uma montanha-russa. Um turbilhão de emoções toma conta do leitor. Ouvindo a própria Lily Allen contando sua história, revivendo todas as suas emoções, felizes ou (mais frequentemente) arrasadoras, era difícil digerir as informações.

É um livro “desconfortável, chocante e brutal”, mas “é verdadeiro”, palavras da própria. E é mesmo!

De fato, ela compartilha histórias pesadíssimas sobre sua vida e a gente entende o lugar em que ela estava ao gravar cada um de seus 4 álbuns, principalmente o último No Shame (Sem vergonha, em português).

Abuso sexual por um executivo da indústria da música

Lily Allen conta em uma entrevista para o The Guardian que a indústria da música é cheia de abusos. Ela explicou com detalhes sobre o suposto abuso sexual por um inominável executivo da indústria da música em sua cama de hotel.

Depois de beber demais em uma festa, Allen conta que essa poderosa figura da indústria o levou para seu quarto de hotel para ela dormir.

“Eu acordei às 5 da manhã porque sentia alguém perto de mim pressionando seu corpo nu contra minhas costas. Eu também estava nua. Podia sentir alguém tentando colocar seu pênis em minha vagina e batendo na minha bunda como se eu fosse uma stripper em uma boate”, contou Lily Allen.

“Eu me afastei o mais rápido possível e pulei da cama… Encontrei minhas roupas rápido… e fugi de seu quarto para o meu”.

Lily ainda contou que queria dar nome ao executivo no livro, mas os editores não permitiram.

Experiência com garotas de programa

Lily Allen revela que dormiu com mulheres durante o período que precedeu o fim de seu casamento com Sam Cooper. Ela levou a público a história via Instagram, assim que partes de seu livro vazaram.

“Então, em meu livro, eu detalho coisas dos meus dias sombrios, por volta da fase do ‘Sheezus’. Eu dormi com garotas de programa quando estava em turnê porque estava perdida e sozinha, e procurando por algo. Não estou orgulhosa, mas não estou envergonhada. Não faço mais isso.”

No livro, ela descreve o encontro: “Ela era cara. Prostitutas de alto nível são caras. Eu não me importei. Só queria que ela me ajudasse a sentir alguma coisa”.

“As coisas pioraram no fim do verão quando eu me juntei à Miley Cyrus em sua turnê Bangerz. Miley, aliás, é ótima. Extrovertida, não ouve merda e se comporta como se estivesse se apresentado por toda sua vida. Ela é uma verdadeira profissional.”

“Depois de cada show, enquanto estávamos nos Estados Unidos, eu ia a um clube de strip. Se tornou uma coisa minha naquela turnê – uma forma de me acalmar, e algum lugar para ir, para que eu não tivesse que experimentar a solidão de um quarto aleatório de hotel”, conta Lily.

George, seu primeiro filho, natimorto

A cantora de Fuck You detalha também momentos muito pessoais, como o nascimento de seu filho natimorto George, em 2010. Natimorto é o termo dado ao feto quando ele morre dentro do útero da mãe, durante o trabalho de parto.

Durante um exame interno, um especialista disse a Allen que seu colo do útero “já estava dilatado”, o que tecnicamente significava que ela já estava em trabalho de parto com 28 semanas e 2 dias (7 meses) de gestação.

Allen foi transferida de ambulância para outro hospital a uma hora de meia de onde estava, onde fez uma cirurgia de emergência para “fazer um ponto para manter meu colo do útero fechado”. O ponto segurou por uma semana e meia até que uma noite Lily riu e sentiu o ponto estourar.

Lily passou a noite inteira em trabalho de parto e pela manhã a parteira disse que ela estava “coroando”. Ela relembra no livro, “algum tempo depois – não sei quanto tempo, talvez cinco minutos, mas pode ter sido cinco horas, ela disse: ‘o cordão umbilical está preso em volta do pescoço do bebê. Ele está com pulso. Agora não mais. Não tem mais pulso'”.

“Por dez horas entre meu bebê morrer e eu conseguir retirá-lo, eu entrei em um estado em que nunca havia estado antes. É um estado que não consigo descrever ou revisitar, mesmo que quisesse. O mal que eu estava sentindo me consumia. Me sentia destruída. Me sentia não-humana”.

Depressão pós-parto

Apesar de ter vivido uma vida acolchoada por riqueza e títulos excepcionais, não foi fácil para Lily. O parto de George, e sua culpa, vergonha e tristeza foram lidadas de maneira muito bonita.

Ela escreve sobre o vazio que sentia, e sobre a depressão pós-parto que se manteve sem diagnóstico porque ela se recusava a reconhecer sua for. Uma mãe que perdeu um filho é frequentemente retratada apenas como triste, histérica ou quebrada. Não tem forma certa ou errada de se sentir depois de uma tragédia desse tamanho.

Lily faz o seu melhor para despertar a conversa sobre o assunto.

Luta contra a bulimia

“Começou com bulimia. Eu começava a me fazer vomitar à medida que meu segundo álbum começava a receber mais atenção. No meu caso, foi um resultado direto de ter meu corpo constantemente inspecionado”, conta Lily, se referindo ao álbum It’s Not Me, It’s You.

“Incidente” com Orlando Bloom

Em 2014, Lily se vestiu de Dr. Luke e foi à festa de Halloween cheia de celebridades de Kate Hudson. “Orlando era famoso muito antes de eu ser, e quando eu o encontrei pela primeira vez, acho que ele se sentiu como meu protetor. Mas não mais.”

“Orlando é um paquerador. Ele sabia que eu toparia ficar com ele em uma festa. Ele também. Ou talvez, não. Talvez eu só supunha que ele me desejava porque era parte da minha personalidade ter que pensar que todo mundo me desejava.”

“De qualquer forma, eu bati a cabeça com ele tão forte que apaguei. Não foi a intenção. Eu estava sentada em seu colo e tentei me inclinar mais perto de seu rosto, minha cabeça bateu na dele e depois bateu em algo duro atrás dele. Essa coisa me apagou. Eu estava muito bêbada”.

Chris Martin, do Coldplay, a ajudou a ficar sóbria

Após o incidente com Orlando Bloom, ele e o Chris Martin levaram Lily para a cozinha da casa de Kate Hudson para tentar ajudá-la a ficar sóbria e a cantora conta: “Chris me levou de volta a minha casa em Santa Monica e, na minha perturbação, achei que ele tivesse me levado ao hospital”.

“Pela manhã, encontrei um bilhete com seu telefone, que ele havia deixado na geladeira. ‘Lily. Chris. Me liga’, dizia. Eu liguei. Ele e Gwyneth [Paltrow] tinham acabado de terminar, mas estavam juntos em Los Angeles fazendo seu divórcio consciente. Eles me convidaram para um almoço de domingo.”

Allen também escreve que Chris e Gwyneth a puseram em contato com seu terapeuta de casal.

Caso com Liam Gallagher, do Oasis

Em outro caso, ela acaba falando a verdade (que Lily já havia desmentido) sobre o ex-vocalista do Oasis, Liam Gallagher. Eles tiveram um caso em 2009, ao se encontrarem em um voo para o Japão para o festival Fuji Rock.

“Ficamos bêbados no avião. A certa altura, fomos para o banheiro fazer algo que não devíamos. E não era usar drogas”, conta Lily.

O grande problema é que, na época, Liam era casado com Nicole Appleton, mas Lily afirma que só soube do casamento quando tudo já tinha acontecido. Seis meses depois do episódio, ele ligou para Allen pedindo que ele desmentisse o caso para Nicole, o que Lily logo fez. Só agora, com o livro, é que Lily assume a verdade.

Stalker invade a casa de Lily Allen

Em outubro de 2015, o caso que começou com um tweet culminou em um homem invadindo a casa e o quarto de Lily Allen à noite.

Alex Gray criou uma conta no Twitter em 2009 com o user @lilyallenRIP (‘Lily Allen descanse em paz’, em tradução livre), afirmando que ele havia escrito o sucesso de Lily The Fear.

Depois disso, cartas começaram a chegar até Lily, acusações e ameaças de suicídio: “Ele deixava essas cartas na minha gravadora, meu escritório de assessoria, na loja da minha irmã, minha casa”, conta Lily. “Isso me deixou com um pouco de medo e eu não me amedronto facilmente, então o fato de eu ter ido à polícia com as cartas mostra como eu estava levando a sério”.

“Fiquei preocupada, mas o fato de eu estar contando à polícia me confortava, eu estava mantendo um registro”.

O homem abordava a assistente de Lily e outros colegas. “Até que uma vez, eu estava no palco e alguém levantou um cartaz dizendo ‘Eu escrevi The Fear‘. A cantora terminou a música e chamou a polícia, que deixou um botão do pânico com ela por alguns meses, antes de pedir por ele de volta.

A essa altura, Lily, que nem sequer sabia da fisionomia desse homem,
implorou à polícia para ver uma foto de Gray. Eles recusaram a princípio e depois de um tempo mostraram uma foto, que levaram de volta em seguida.

Naquele outubro, Allen queimou seu jantar e deixou a porta da cozinha aberta, e esqueceu de trancar antes de ir para a cama. Dormindo com um homem e seus dois filhos no quarto da frente, ela foi acordada por umas batidas na parede.

“Sentei e olhei para a maçaneta girando. Esse homem entrou gritando e eu não sabia quem era. Me recolhi na cama e ele arrancou o lençol, me chamando de ‘vadia’ e gritando perguntando onde seu pai estava”.

O homem tinha um objeto sob sua jaqueta e Lily se convenceu de que era uma faca. Ela acha que Alex foi surpreendido por ela não estar sozinha e seu amigo conseguiu tirá-lo de casa e ela correu para ver se seus filhos estavam a salvo.

“Por um segundo, fora do quarto dos meus filhos, eu fiquei aterrorizada de entrar com medo do que eu poderia encontrar”, conta Lily.

Ao notar a bolsa de Lily desaparecida, a polícia tratou o caso como um roubo, descreditando a ideia da cantora de o homem ser o mesmo que a ameaçava desde 2009.

Depois de uma semana, ao chegar em casa de um evento, Lily encontrou sua bolsa queimada sobre o capô de seu carro. O homem subsequentemente foi pego e indiciado por roubo.

“É difícil articular quando […] a polícia diz ‘certo, é um roubo se você quer que o homem seja preso’, e você está pensando ‘mas eu não estou nem aí para minha bolsa, eu estou preocupada com um homem dizendo que quer me esfaquear'”.

“Eu não estava querendo atenção especial, eu queria validação. A polícia fez eu me sentir como um incômodo, mais do que como vítima. Tenho sorte de ter tido os recursos de me proteger. Eu pude me mudar, conseguir um advogado, mas se você não tem dinheiro, o quanto mais desesperador deve ser?”, completa.

Apesar de tudo, Lily Allen diz não ter raiva de Alex Gray. “Ele tem uma doença mental. O sistema falhou com ele. Mas até que ele receba o tratamento e ajuda corretos de que precisa, eu não estou segura. Você pode jogar as regras nele, prendê-lo, mas ele vai sair. E a vítima nunca está a salvo”.

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Lily conta que a razão pela qual escolheu contar todas essas histórias foi suas filhas saberem de tudo.

“Se eu morrer amanhã, e pesquisarem o meu nome no Google, quero que encontrem alguma coisa. A minha história, contada da minha perspetiva.”

O livro My Thoughts Exactly infelizmente ainda não tem previsão de tradução para o português.

Mas se você gosta da Lily Allen (ou gostaria de conhecer), você pode conhecer todo o seu trabalho musical aqui.