O diretor criativo da Chanel, Karl Lagerfeld, morreu aos 85 anos na terça-feira em Paris.

Lagerfeld, conhecido por ser “o rei da moda” e um prolífico designer que deixou sua marca na indústria, era também islamofóbico, racista, misógino e gordofóbico apologista ao estupro, cujas crenças e posturas políticas eram ignoradas por milhões em prol de seu acúmulo de riqueza e impacto como designer.

Não é surpreendente testemunhar publicações e pessoas rasgarem seda sobre o gênio que Lagerfeld era, enquanto ignoram sua história de comentários opressivos em relação a qualquer um que não se encaixasse em sua estética estreita da existência humana. Lagerfeld se orgulhava de ser o guardião de uma indústria que há muito tempo continua a perpetuar a supremacia branca e outras formas de opressão. Ele alegou que não se sentia constrangido pelo legado de Coco Chanel como designer, mas certamente continuou o legado de uma Europa de extrema direita e uma versão diluída do papel de seu antecessor como espião e simpatizante nazista.

Em vez de separar a arte do artista, acho que é hora de a moda chegar a um acordo com os comentários repulsivos de Lagerfeld – a primeira coisa a fazer seria admitir que eles existem e que os comentários continuam a ser prejudiciais e que as crenças do designer só afirmaram os sentimentos e ideologias de milhões que odeiam pessoas cujos corpos estão fora da norma supremacista branca e misógina.

Em 2017, Lagerfeld não teve nenhum problema em afirmar que os imigrantes sírios e muçulmanos não eram bem-vindos na Europa e insistiu numa ideia islamofóbica e francamente anti-semítica de que “não se pode matar milhões de judeus – mesmo que existam décadas entre eles – e trazer milhões de seus piores inimigos em seu lugar”. Esse comentário foi feito apenas alguns dias depois que neo-nazistas e nacionalistas brancos se reuniram na Polônia para manifestações contra migrantes negros e pardos, gritando “Polônia pura, Polônia branca!” e “Refugiados saiam!”

Ao longo de sua carreira, Lagerfeld era notoriamente misógino. Em uma conversa com Carine Roitfeld, editora-chefe do CR Fashion Book, ele afirmou que seria uma vergonha ter uma “filha feia” e que ter filhos era para mulheres, não para homens.

Ele também afirmou que Coco Chanel não era feminista porque “não era feia o suficiente para isso”.

Não faltam comentários gordofóbicos do designer, inclusive como ele não acreditava que a indústria da moda tivesse qualquer relação com transtornos alimentares: “Na França, há uma grande porcentagem de jovens com excesso de peso e menos de 1% são magras. Então, vamos falar sobre os 25% que têm problemas de peso ou estão acima do peso. Não precisamos discutir esse menos que um por cento. Anorexia não tem nada a ver com moda. Essas garotas russas são tão jovens. Os chineses também são magros e ossudos. Eu não acho que seja um assunto para discutir. E no mundo de hoje, muitas pessoas usam drogas, não apenas modelo. É um assunto desnecessário. Vamos falar sobre os gordos.”

As crenças limitadas e repugnantes de Lagerfeld sobre as mulheres incluíam sua firme oposição a apresentar modelos plus-size em qualquer mídia: “Ninguém quer ver mulheres curvilíneas. Você tem mães gordas com seus sacos de batatas fritas sentadas em frente à televisão e dizendo que modelos magras são feias. Moda é sobre sonhos e ilusões”.

Seus comentários não se limitavam a generalizar e envergonhar as mulheres, ele também repugnantemente observou que Adele, “é um pouco gorda demais, mas ela tem um rosto bonito e uma voz divina”.

Sobre Pippa Middleton: “Eu não gosto da cara [dela]. Ela só deve mostrá-la de volta.

Sobre Heidi Klum: “Heidi Klum não é modelo de passarela. Ela é simplesmente muito pesada e tem um busto muito grande. E ela sempre sorri tão estupidamente. Isso não é avant-garde – isso é comercial!”

Em uma entrevista de 2018, Lagerfeld afirmou que estava “cansado” do movimento #MeToo (em que artistas divulgaram suas histórias de assédio na indústria) e que o que mais o chocou foi “as estrelas que levaram 20 anos para se lembrar do que aconteceu. Sem mencionar o fato de que não há testemunhas de acusação”- como se o problema fosse a memória e como se houvesse geralmente testemunhas de agressões sexuais. Ele continua com:

“Se você não quer que suas calças sejam abaixadas, não se torne uma modelo! Junte-se a um convento, sempre haverá um lugar para você no convento. Eles estão até recrutando!”

As publicações descreveram seus comentários como “malcriados”, “mal-intencionados”, “de língua afiada superficiais” e “controversos” em vez de sexistas, misóginos, racistas, gordofóbicos e islamofóbicos. A flagrante separação entre o artista e a arte perpetua ciclos de abuso nos quais homens como Lagerfeld podem ocupar espaços proeminentes em nossas indústrias e não enfrentam consequências de suas palavras ou ações, e são lembrados com carinho quando estão mortos.

A indústria da moda continuou a deixar essa pessoa terrível ocupar um lugar de alta estima e reduziu seus comentários a Lagerfeld simplesmente sendo um pouco excêntrico.

Está na hora de a indústria da moda cultivar lembranças honestas do homem e lidar com seu verdadeiro legado e com a realidade da opressão na moda, se você realmente deseja criar mais espaço para pessoas e corpos marginalizados na moda – não vou segurar minha respiração para isso, eu não quero desmaiar.

Artigo de Lara Witt para a Wear Your Voice.