São dez da noite, eu acabei de chegar em casa de outro encontro decepcionante, e a última coisa que quero ouvir de qualquer amigo bem-intencionado é: “Sua hora vai chegar”. Dane-se a minha hora. Cansei de tentar. Faço uma lista rápida de todos os objetivos pessoais que vou priorizar no próximo mês, porque eu só preciso me concentrar um pouco. Porque – como Harry Potter descobriu com a Pedra Filosofal – se eu não estiver procurando por amor, é finalmente quando eu vou encontrá-lo … certo?

Talvez.

Vou ter que esperar para encontrar a resposta para essa pergunta, porque eu rapidamente me vejo de volta no fundo do poço, nadando (ou melhor, deslizando o dedo) por um estoque aparentemente interminável de possíveis futuros encontros, tudo graças ao meu aplicativo de relacionamento sempre a postos.

Com uma ferramenta do tamanho do meu bolso que facilita o encontro de tantas pessoas novas, não é de admirar que a busca por uma conexão significativa possa ser esmagadora.

Os psicólogos chamam esse fenômeno de sobrecarga de escolha: quando “mais opções levam a menos seleções – e, ao contrário, diminuem a satisfação com as escolhas feitas”. Para aqueles que buscam amor na era digital, isso pode soar muito familiar.

Ainda assim, por causa da realidade do nosso mundo digital, mais e mais pessoas começam seus relacionamentos como eu: online e através de aplicativos de namoro. E isso pode ser ótimo. Essas ferramentas digitais expandem as redes sociais preexistentes para todos, ampliando assim o mar metafórico e o número de parceiros em potencial que temos a oportunidade de conhecer.

Para as pessoas que enfrentam o chamado mercado enxuto de parceiros em potencial, como heterossexuais de meia-idade, pessoas negras ou membros da comunidade LGBTQ, essas ferramentas digitais costumam ser o primeiro e o único lugar para encontrar um parceiro.

De fato, um artigo sociológico de 2012 descobriu que, para casais do mesmo sexo – compreendendo menos de dois por cento de todos os casais nos EUA – perto de 70% dos relacionamentos começaram online.

Foto: Leo Chang

Em seu mais recente projeto fotográfico, o fotógrafo Leo Chang, sediado em Nova York, começou a explorar esse novo paradigma e desnudar algumas das idiossincrasias do namoro online, particularmente entre gays que iniciam relacionamentos online. A inspiração por trás do projeto em grande parte resultou de experiências pessoais e conversas que Leo teve com outros gays millenials tentando encontrar conexões significativas na era digital. Parte do objetivo de Leo é descascar o brilho autoconsciente de perfis de namoro perfeitamente polidos para revelar ternura e vulnerabilidade nos relacionamentos gays masculinos. Uma maneira pela qual esse objetivo se manifesta é em sua decisão de usar filme em vez de fotografia digital:

“Conceitualmente, [o filme é] quase uma antítese para a rapidez com que fazemos conexões e a rapidez com que nossas vidas se movimentam hoje, especialmente considerando o componente digital de nossas vidas. Porque no Instagram, tudo tem um brilho, tudo tem que ser perfeito, e todo mundo gosta de projetar a versão mais perfeita de si mesmo. Com o filme… é um momento mais cru e um momento real e é isso que eu quero capturar”.

O foco de Leo em compartilhar a intimidade sob os filtros da mídia social reflete conversas que tive com outros jovens. Emefa Addo Agawu, um associado do programa na New America, compartilhou seus pensamentos comigo em uma entrevista recente quando perguntei a ela sobre as realidades do amor e da intimidade na era digital:

“Eu acho que o maior desafio para a intimidade é estar tão consciente de si mesmo, porque quando você está tão consciente de si mesmo, você só tem menos energia disponível para estar presente e receber informações sobre essa outra pessoa com quem você pode ter (qualquer tipo de) relacionamento. Suspeito que qualquer pessoa que seja fluente em mídias sociais desenvolva um tipo de autoconsciência que eu simplesmente não acho que as gerações anteriores tiveram, ou tiveram que ter, ou soubessem como ter.”

Aliás, já falamos sobre como aplicativos de pegação estão afetando a saúde mental dos gays.

Da mesma forma, Leo disse que escolheu olhar para as relações de gays millennials na era digital precisamente por causa dessas contradições; por um lado, a “acessibilidade e amplitude de oportunidades” que os aplicativos proporcionam para as pessoas LGBTQ e, por outro lado, a dificuldade em estabelecer conexões íntimas e significativas.

Foto: Leo Chang

Para pessoas negras e pessoas trans, as nuances e dificuldades de relacionamento digital se multiplicam. Leo me contou sobre uma recente polêmica envolvendo uma conta popular de mídia social gay. A conta, que era popular por destacar a beleza masculina, disse que não postaria fotos de “pessoas maiores” ou “até asiáticos” porque eles não conseguiam “fazer [o dono da conta] se apaixonar”.

Leia também: Como o sexo online está se tornando mais magro, hétero e branco.

Parte do objetivo de Leo com sua série de fotos é destacar alguns desses problemas espinhosos que podem inibir conexões significativas na comunidade gay. De fato, seu trabalho pode repercutir em muitos millennials de diversas origens que estão cada vez mais tendo dificuldade em encontrar o amor. Uma recente pesquisa Gallup descobriu que os millennials de todas as sexualidades são mais propensos a relatar que são solteiros e moram sozinhos, de 52% em 2004 para 64% em 2014, apesar de ainda expressarem “um desejo significativo pelo casamento”.

Enquanto os millenials frequentemente expressam seu amor e compromisso fora do casamento, o fato de que o desejo de casamento ainda é alto ilustra o anseio constante por companheirismo.

Não apenas as taxas de casamento estão caindo, os casais também estão se separando com mais frequência. Talvez sem surpresa, isso foi especialmente verdadeiro após a eleição presidencial americana de 2016. Uma pesquisa após a eleição constatou que um em cada 10 americanos terminou um relacionamento por causa de suas diferenças políticas, um número que salta para mais de um em cada cinco ao fazer um levantamento dos millennials americanos.

Com a percepção alarmante de que estou começando a soar como meus pais, fiz a mesma pergunta a mim mesmo: por que a geração millenial acha mais difícil começar relacionamentos e depois terminam mais facilmente depois de começar?

Uma resposta poderia ser simplesmente que os millennials sentem menos pressão do tempo para encontrar um parceiro adequado e estão dispostos a ser mais seletivos ainda mais jovens. Mas isso não explica por que as gerações anteriores se casaram mais jovens e ficaram mais tempo em relacionamentos. Então deve haver outra resposta.

Já discutimos alguns dos fatores que poderiam influenciar essa nova realidade: a autoconsciência hiperativa que pode inibir a intimidade e a sobrecarga de escolhas que paralisam as decisões. Além disso, as realidades financeiras que acompanharam a Grande Recessão fizeram com que o amor e os compromissos de longo prazo parecessem um grande risco para muitos millennials.

Para os indivíduos LGBTQ, apesar do advento dos encontros online, ainda há muito menos pessoas procurando relacionamentos queer e ainda existem exemplos de discriminação, como mencionado acima.

Já exploramos também como a pornografia influencia nossa forma de sentir prazer.

Mas isso não tem que ser a norma.

Ao fotografar e compartilhar momentos de ternura particular, a arte de Leo nos aproxima de um mundo onde o amor e a intimidade, em todas as suas formas, não são apenas acessíveis, mas são publicamente celebrados. As demonstrações de amor, vulnerabilidade e empatia destacadas por Leo são especialmente importantes no contexto político hiper polarizado de hoje e nos aproximam de um mundo que defende a justiça.

“É um processo lento para progredir”, diz Leo, “mas a mudança é possível. Já acho que há uma ponte sobre a lacuna, vagarosa, entre o que o amor pode parecer em particular e o que pode parecer em público.”

Artigo de Dillon Roseen para a Advocate.