Quando Com Amor, Simon foi lançado nos cinemas parecia que o Vale dos Homossexuais (lugar mitológico atingível apenas para os puros de coração por meio do uso de aplicativos, após curso obrigatório com formação em divas pop e cultura de cancelamento) finalmente receberia o filme prometido nas profecias que contaria a história de um romance gay sem choro, doenças e ranger de dentes.

No fim, recebemos uma obra gay o suficiente para conseguir o pink money, mas também levemente homofóbica, o bastante para o público hétero não se incomodar e ainda sorrir e pensar “agora eu sei o que o meu amigo viado passa” (prometo uma análise completa no futuro para explicar minhas colocações atrevidas contra o queridinho do Vale).

Mas esse texto não é sobre Love, Simon. O exemplo serve apenas para refletirmos que talvez seja errado nós, constantemente, esperarmos uma obra magnificamente messiânica, livre de estereótipos e fabulosamente cheia de glitter.

Essa espera serve apenas para elevarmos nossas expectativas e, assim, ignorarmos a beleza de obras até mais próximas…

É o caso de Primos, de Mauro Carvalho e Thiago Cazado, sendo Thiago também roteirista e ator no filme.

Os Primos conseguem apresentar o Love que Simon nunca conseguiu. Com leveza e simpatia, o filme transmite uma energia libertadora e agradável.

Contando a história de Lucas (Paulo Sousa), que mora com a religiosa tia Lourdes (Juliana Zancanaro). Quando Mário (Thiago Cazado), recém saído da cadeia, muda-se para a casa, a rotina se altera e uma paixão surge entre os primos.

Por algum motivo, eu tinha certeza se tratar de um drama, acredito que o pôster do filme me levou a isso, então eu me joguei esperando dor e sofrimento para os protagonistas. Imagine a (ótima) surpresa ao encontrar uma narrativa divertida e, sim usarei esse termo, fofa.

Os personagens orbitam entre a caricatura e a realidade da melhor maneira possível.

Muito disso é feito para comédia, principalmente envolvendo uma religiosidade exagerada, mas é com uma bela naturalidade que até os mais excessivos existem na história, como é o caso de Júlia, uma adolescente inconvenientemente cheia de desejos pelo personagem principal, ao ponto de quase se tornar uma Soraya Montenegro.

O filme não é perfeito. Nem poderia ser. Só consigo imaginar as dificuldades enfrentadas pela equipe para retirá-lo do papel. Assim, pequenos erros de continuidade e, algumas, decisões discutíveis no roteiro foram ignoradas por mim quando me deparei com uma obra que me despertou tantos sentimentos bons.

Para ser sincero, meu maior incômodo foi o fato de Lucas (Paulo Sousa), ser um personagem criado desde pequeno por uma tia, em um ambiente e com uma rotina bastante religiosa e, ainda assim, se apresentar com tatuagens, alargadores e piercings. Mas talvez isso revele mais a minha própria cabeça estereotipada do que um grande erro do filme.

Aliás, a química e a entrega dos protagonistas é inegável. Você se pega apaixonado pelos dois primos, tanto quanto pela relação que se forma entre eles.

Fotos: Divulgação

O filme é bastante gráfico, de maneira nenhuma próprio para menores, o que é irônico, pois seria uma ótima resposta para a pergunta clichê: “como vou explicar aos meus filhos?”. Do jeito que Primos explica. É natural, agradável, prazeroso…

Em vários momentos, nós esperamos um descarrilamento da história, a desgraça que parece que vai logo acontecer, a destruição daquilo tudo. Já aviso, não acontece.

O filme tem seus antagonistas e obstáculos, mas os dramas, doenças e agressões típicos do cinema LGBTQ não corromperam essa obra.

Dramas são ótimos, manter-se na realidade nua, crua e cruel, que como pessoas LGBTQ, somos tão tristemente obrigados a viver, é uma ótima maneira de nos tornar vivos para o mundo e transmitir as experiências da nossa comunidade. Mas, presenciar uma história delicada e amável como a de Primos, é algo que alegra e liberta. Nós precisamos delas também. E pontos a mais por criar, além de tudo, uma tia religiosa que faz gosto amar.

Assista ao trailer do filme Primos (2019):

Para assistir ao filme na íntega, acesse o portal MACA Play.

Artigo de João Will Jr., para o QueerFeed.

João Will Jr. é mais um daqueles que gosta de fazer muita coisa. Roteirista, escritor, radialista, podcaster, editor… Fascinado por histórias em todas as suas formas.