Ellen DeGeneres recebeu Kevin Hart em seu programa na última sexta-feira para explicar seu lado da polêmica.

Se você ainda não estava sabendo, Kevin Hart havia sido anunciado mês passado como o apresentador do Oscar 2019. Logo após o anúncio, uma série de tweets homofóbicos pesadíssimos do passado do comediante foram trazidos à tona, forçando-o a se retirar da 91ª edição da premiação.

Os tweets homofóbicos de Kevin Hart

“É por isso que você sua por qualquer coisa, seu viado gordo”.

“Olha, se meu filho chega em casa e tenta brincar com a casa de bonecas da minha filha, eu a quebro em sua cabeça e digo ‘pare, isso é gay'” e “Por que a foto de perfil do @DamienDW parece um outdoor da AIDS?… Bum! Eu estou em chamas hoje”.

Ainda, em dezembro, Kevin começou a excluir alguns de seus tweets comprometedores e, por consequência, decidiu abandonar o posto de apresentador da cerimônia.

Ainda via twitter, Hart escreveu: “Minhas mais sinceras desculpas à comunidade LGBTQ por minhas palavras insensíveis do passado”.

A defesa de Ellen DeGeneres a Kevin Hart

Amiga de Kevin Hart, a apresentador Ellen DeGeneres convidou o comediante para o seu programa desta sexta-feira, dia 04 de janeiro, para conversar sobre o ocorrido e dar espaço ao ponto de vista de Hart.

Na entrevista, entre o muito que foi conversado, Ellen lembrou o quanto eles já haviam conversado sobre Kevin querer apresentar o Oscar.

“Era um dos meus pontos mais altos porque não há muitos negros que já apresentaram o Oscar, eu seria o quarto”, disse Kevin Hart.

A partir daí, o comediante explica que no dia seguinte, as pessoas começaram a desenterrar tweets de 10 anos atrás e ele decidiu apenas ignorar.

“Eu sei que não tenho sequer um osso homofóbico no corpo. Sei que já falei sobre isso, sei que já me desculpei. Passei 10 anos colocando minhas desculpas em prática”, explicou.

Contou também que ficou chateado por que ninguém se preocupou em encontrar as vezes em que se desculpou: “Tive que falar sobre isso quando fiz uma coletiva com o Will Ferrell sobre a piada do filme Get Hard, em 2012 numa série de coletivas em que fui questionado sobre homofobia.”

“Entendo o que essas palavras fazem e como elas machucam. Entendo por que as pessoas se irritam e, por isso, fiz a escolha de não as usar mais. Não brinco mais daquele jeito, porque é errado”, continua Kevin Hart.

Daí ele explica sua decisão de deixar de apresentar o Oscar: “Minha razão para apresentar o Oscar era torná-lo divertido. Agora está mais sobrio, porque a conversa é sobre tweets do Kevin Hart de 10 anos atrás e homofobia. Não quero subir naquele palco e tornar a noite sobre mim e meu passado quando pessoas trabalharam tão duro para receber prêmios”.

“Mais uma vez, sinto muito que aquelas palavras machucaram. Sinto muito. Mas minhas desculpas ou são aceitas ou não. Ou eu sigo em frente ou não. Mas não é possível crescer como pessoa sem cometer erros”.

“Escolhi sair de cena porque quero que essa conversa acabe. Não quero ter que conversar sobre isso novamente porque sei quem sou. Não sou mais aquele cara”, completou Kevin Hart.

No bloco seguinte, Ellen DeGeneres explica por que ele deveria ainda assim apresentar o Oscar.

“Eu liguei para a Academia hoje porque realmente quero que você apresente o Oscar”, começou Ellen. “Eles disseram que querem que você apresente o Oscar. Disseram ‘o que precisamos fazer para ele apresentar?'”

A partir daí, Ellen tece uma série de elogios a Kevin Hart sobre seu talento como ator, dizendo que seria algo que veríamos no Oscar.

“Existem muitos haters por aí. Não preste atenção no que acontece na internet. É um pequeno grupo de pessoas fazendo muito barulho”, disse Ellen.

E Kevin explica:

“Neste caso é difícil para mim porque foi um ataque. […] É um ataque malicioso a meu caráter, não é um ataque apenas ao Oscar. […] Isso foi para me destruir.”

Por fim, Ellen faz o último apelo dizendo: “Não deixe [os haters] ganharem. Apresente o Oscar”.

Na última parte do programa, Kevin afirma que a conversa com Ellen o fez pensar e ele avaliará a situação e pensará se apresentará a cerimônia.

A reação da comunidade LGBTQ à entrevista

Após o esforço de controle de crise da imagem de Kevin Hart no programa da Ellen DeGeneres, grande parte da comunidade LGBT começou a bombardeá-lo novamente com críticas, apontando a relutância do comediante de oferecer um pedido de desculpas completo a princípio, citando desculpas anteriores como suficientes.

Muitos julgaram a atitude de Ellen como uma traição à comunidade LGBTQ, infelizes por ela ter escolhido caracterizar quem trouxe as preocupações à tona simplesmente como haters, liberando-o da responsabilidade de autorreflexão.

O diretor de entretenimento do site Out, Tre’Vell Anderson, escreveu em um artigo: “Como um queer negro que, quando meu corpo começou a manifestar aspectos da minha identidade – andar afeminado e mão pendurada – foi agredido no peito por homens negros da minha família, Ellen não pode e nem fala por mim”.

“Hart é um dos rostos negros mais reconhecidos da cultura pop e, por isso, deveria especialmente procurar perdão de pessoas queer negras, além do restante da população, coisa que DeGeneres não pode dar”, continua Tre’Vell.

O jornalista e ativista George M. Johnson gravou um vídeo no Twitter em que disse:

“Permitir que Hart fosse ao seu programa, falasse basicamente por 6 minutos, ininterruptos, em que você não o desafia pelas coisas que disse, é apenas um desserviço, e mais um pouco pelo que as pessoas negras LGBTQ passam por LGBTQs brancos, que continuam a absorver as pessoas cis héteros quando ferem sua comunidade em particular.”

“Acho que, se você não é mais homofóbico, não deveria se importar de pedir desculpas várias vezes. Não quero ouvir uma história hostil de como não ouvimos suas desculpas da primeira vez”.

“Eu também acredito em perdão. Mas também acredito que perdão exige um pedido de desculpas. Sem ‘sinto muito que as pessoas são muito sensíveis’. Apenas ‘me desculpem’. Era tudo que ele precisava fazer. E ele, indignado, se recusou porque sentia que seu momento estava sendo manchado. Que ele era a vítima”.

“Essa história da Ellen/Kevin Hart é o exemplo perfeito de como o privilégio e elogios constantes distorce tanto a realidade das pessoas, que elas percebem qualquer crítica, mesmo que válida, como um ataque sobre toda a sua vida”.

Em uma série de tweets, o repórter do BuzzFeed Adam B. Vary explicou uma série de pontos:

“Primeiro, as pessoas que levantaram os tweets do Kevin Hart – como eu – não eram, como Ellen caracterizou “haters“. O apresentador do Oscar havia feito piadas anti-gay, e os LGBTs que amam o Oscar ficaram legitimamente machucados com quão graves suas palavras foram. Não foi uma…”

“mobilização das pessoas para atacar Kevin Hart. Foi um grupo de pessoas que queria entender o pensamento de Hart sobre esses tweets maldosos e suas piadas de stand-up. Segundo, em sua entrevista na Ellen, Hart faz referência a se desculpar no passado durante a coletiva de Get Hard. Bem…”

“Quando Louis Virtel perguntou a Hart sobre as piadas vagamente homofóbicas no filme Get Hard, como Hart afetando sua voz para evocar medo de estupro na prisão, sua resposta foi ‘o que é engraçado é engraçado’. Essa pode ser uma perspectiva legítima, mas não é um pedido de desculpas”.

“Por fim, é deprimente que o entusiasmo de Ellen por Hart apresentar o Oscar – e que ele seria um bom apresentador – a levou a contribuir a uma narrativa em que Hart é a vítima de ‘haters’ e ‘trolls’ que quiseram ‘detruí-lo’, e que se ele não apresentar o Oscar, eles teriam ‘ganhado’. Bem…”

“Se a Academia quer contratar Hart de volta depois de ele ter tornado o simples ato de se desculpar por uma linguagem anti-gay nociva e prejudicial em uma conspiração maléfica para arruinar sua vida inteira, não sei quem, nesse cenário, vai ganhar”.

Os “pedidos de desculpa” de Kevin Hart

Um pedido de desculpas é o reconhecimento de um erro, ofensa ou falha. Um pedido de desculpas tem palavras como “sinto muito” ou “me arrependo”, e essas palavras são utilizadas sem transferir a culpa ou fardo para outra pessoa, lugar ou coisa.

Não é “me desculpe se te ofendi”, nem “me desculpe se minhas palavras te machucam”.

O site Vulture aponta que a homofobia que Kevin Hart vai além dos tweets em que usa palavras ofensivas. Ele já disse, em seu especial Seriously Funny que, apesar de não se considerar homofóbico, um de seus maiores medos é que seu filho se tornasse gay. O vídeo, em inglês, está abaixo:

A primeira entrevista de Hart em que ele comenta sobre homofobia é de 2013 para a Men’s Health, em que diz: “Não sou fã de piadas sobre política ou apontadas à comunidade gay. Não é minha agenda. Eu deixo essas coisas para lá. As coisas mudaram muito entre onde a comédia está hoje e onde costumava estar”.

Em 2014, para a Playboy, ele afirmou que “não fala sobre a comunidade gay, masculina ou feminina. Não, obrigado. É um assunto tão delicado. Já vi comediantes em sérios apuros por brincar com os gays. É perigoso demais. O que você disser, qualquer piada, será colocada fora de contexto. Não vale a pena”.

Em outro evento, também em 2014, ele reafirmou: “É um tópico delicado e eu respeito pessoas de todas as orientações. Então é melhor deixar para lá”.

Para a Rolling Stone em 2015, sobre a piada do filho ser gay, ele disse:

“Não contaria aquela piada hoje porque, quando contei, os tempos não era tão sensíveis quanto hoje. Acho que nós adoramos dar importância para coisas que necessariamente não são tão importantes, só porque podemos. Essas coisas se tornam espetáculos públicos. Então, por que se colocar numa posição de falhar?”

Mas quanta desculpa é necessária para perdoarmos alguém pelo seu passado?

Fica a dúvida: por mais que Kevin Hart tenha percebido as diversas vezes em que falou besteira, acredito que eu e você, que está lendo este artigo, concordamos que, de fato, a única vez em que ele pediu desculpas foi no tweet em que ele decidiu não mais apresentar o Oscar, e na entrevista da Ellen.

Será que, na cabeça dele, todas as vezes em que reconheceu que o mundo “está mais sensível”, ele estava pedindo desculpas?

E, mesmo que, possivelmente, ele não seja homofóbico, a Ellen perdeu a chance de ensinar para ele que ser homofóbico não significa apenas necessariamente ser violento?

Será que ela, por conhecê-lo há tanto tempo e saber da boa pessoa que ele é, ficou tão determinada a provar que ele é essa boa pessoa e não se lembrou de apontar os erros dele? Ou até de dar o toque para ele, de que, de fato, ele precisava ter pedido perdão?

A pergunta que fica é: a comunidade LGBTQ aceitou as desculpas de Hart no programa da Ellen e no Twitter? O que mais é necessário para que nós o perdoemos?

Quantas vezes precisaremos ouvi-lo falando isso até que acreditemos que ele mudou de verdade?

A 91ª edição do Oscar, ainda sem um apresentador definido, acontece dia 24 de fevereiro de 2019.