Essa foi uma grande semana para a luta contra o HIV, o vírus da AIDS. Não só um, mas dois casos de pacientes curados do HIV foram reportados mundialmente. Estes são os primeiros casos desde “o paciente de Berlim”, em 2006.

Os pesquisadores dizem que a cura para o HIV é difícil, mas é possível.

O primeiro caso: o paciente de Berlim

Hoje revelado como Timothy Ray Brown, um homem de 52 anos que atualmente vive na Califórnia, ele fez um transplante de medula óssea para tratar uma leucemia – um câncer no sistema imunológico.

Seu tratamento envolvia matar praticamente todas as suas células imunológicas através de drogas e radioterapia, e depois substituí-las por novas células de um doador.

Esse doador era naturalmente resistente ao HIV graças a uma mutação rara, porém natural, na proteína CCR5.

Timothy foi diagnosticado com HIV em 1995, quando vivia na capital alemã.

O segundo caso: o paciente de Londres

De acordo com o New York Times, o paciente entrou em “remissão” do HIV após receber um transplante de medula óssea como tratamento de um linfoma não relacionado ao HIV. Ele foi apelidado de “o paciente de Londres” para garantir seu anonimato. O caso publicado na última terça-feira (5) é apenas o segundo em mais de uma década tentando replicar o método do primeiro caso.

Ambos os pacientes foram curados através de transplantes de medula óssea de doadores com uma mutação na proteína CCR5. Os dois estavam lutando contra o câncer.

As proteínas CCR5 mutadas são resistentes ao HIV e capazes de impedir que o vírus entre nas células do sistema imunológico.

Em uma declaração ao The Times, o paciente de Londres disse que é “surreal” pensar que ele poderia estar curado tanto do câncer quanto do HIV.

“Eu sinto um senso de responsabilidade para ajudar os médicos a entender como isso aconteceu para que eles possam desenvolver a ciência”, acrescentou.

Os médicos dizem que o paciente de Londres, que recebeu seu transplante de medula óssea em maio de 2016, interrompeu sua rotina antiviral de HIV em setembro de 2017 e permaneceu livre do HIV desde então. Ele e Brown são os únicos casos de remissão do HIV a longo prazo já registrados.

“Isso vai inspirar as pessoas de que a cura não é um sonho”, disse Annemarie Wensing, virologista do Centro Médico da Universidade de Utrecht, na Holanda. “É alcançável.”

Embora as opções de tratamento e prevenção do HIV tenham evoluído muito desde os primeiros dias da epidemia de HIV/AIDS, novas infecções ainda estão em ascensão entre certas comunidades vulneráveis, como latinos gays e bissexuais e LGBTQ da Flórida. E a PrEP, uma droga preventiva recomendada para pessoas com alto risco de contrair o HIV, não é exatamente acessível ou barata para todos.

A transmissão do vírus HIV (verde), anexada à célula imunológica (laranja)

O terceiro caso: o paciente de Düsseldorf

Nessa mesma semana, o New Scientist informou que uma terceira pessoa estaria curada do HIV após um transplante de medula óssea.

Pesquisadores alemães conseguiram replicar os resultados mais uma vez no “paciente de Düsseldorf”, outra pessoa soropositiva diagnosticada com câncer.

Após o transplante de medula óssea, as biópsias do intestino e do linfonodo do paciente de Düsseldorf não revelaram nenhum HIV infeccioso após três meses sem tratamento com drogas antirretrovirais.

Tanto o caso do paciente de Londres quanto o do pacientes de Düsseldorf foram anunciados publicamente na Conferência sobre Retrovírus e Infecções Oportunistas, em Seattle, na semana passada, daí a rápida sucessão.

O quarto e quinto casos estariam próximos?

Ainda de acordo com o New Scientist, pesquisadores que lutam contra o HIV/AIDS em Barcelona também estão monitorando outros dois pacientes soropositivos pós-transplantes de medula óssea relacionados ao câncer. Nenhum desses pacientes parou seus regimes de medicamentos antivirais ainda.

Estamos próximos da cura em larga escala?

Embora a notícia seja indubitavelmente animadora, a praticidade dos transplantes de medula óssea como uma cura generalizada para o HIV não é grande.

Publicamente, os pesquisadores apelidaram o plano de tratamento de “cura”, embora haja uma grande ressalva: os transplantes de medula óssea são procedimentos arriscados com efeitos colaterais que podem durar uma vida inteira. Mas o fato é que essa abordagem pode apontar outras estratégias para a cura.

Um método possível, ainda de acordo com o New Scientist, poderia ser alteração de gene para mutar o CCR5 nas células imunológicas da própria pessoa.

No entanto, os cientistas estão esperançosos de que os casos irão promover avanços na luta global contra a epidemia de HIV/AIDS.

Estima-se que no Brasil existam 866 mil pessoas portadoras do vírus HIV, segundo o Ministério da Saúde. E destas, 92% estão com o vírus indetectável. Sinal de que a adesão ao tratamento é alta. Aliás, o homem mais velho do mundo com HIV está próximo de completar 100 anos!