Artigo escrito por David Russel em novembro de 2016, traduzido livremente da Esquire. David é famoso no mundo da música americana, principalmente por ser agente da cantora Sia.

Eu frequentemente penso sobre as responsabilidades que tenho – as dívidas que tenho, de certa forma – para com aqueles que vieram antes de mim.

Eu tive sucesso na vida, mas sou um homem gay, vivendo em 2016, nos EUA que em breve serão de Donald Trump. Também sou soropositivo.

Existe uma responsabilidade em ter HIV, especialmente se você vai ser aberto em relação a isso. Eu levo isso a sério. Ainda estou estigmatizado pela minha sorologia. Pode ser, e ainda é, uma estrada difícil para a esperança. Ao mesmo tempo, porque estamos em 2016 e eu tenho acesso a medicação, minha vida é tão normal quanto a de qualquer pessoa.

Me assumir abertamente sobre minha sorologia no início de 2016 em meu perfil no Facebook, e em uma entrevista à Poz.com. Levou bastante tempo. Me senti inspirado em parte por um amigo, Shawn Decker, que escreveu um livro chamado Meu Vírus de Estimação (My Pet Virus, em inglês), sobre viver com HIV. Ele me pediu que falasse sobre meu status. Todos em minha vida sabiam e eu era aberto e honesto com eles, mas nunca havia falado sobre isso de forma pública.

Quando Shawn falou comigo, eu nem pensei. Falei “Sim, eu faço”. Eu lembrei muito claramente o quão alienado eu me senti quando descobri que sou soropositivo. Como qualquer pessoa navegando pelo mundo das paqueras, meu status surge sempre. Eu olho a isso como algo à prova de falhas; uma forma de falar tanto até que eu não tenha que falar mais.

Depois, me surpreendi com o número de pessoas que se inspiraram para compartilhar seu status comigo, ou publicamente. Era uma das melhores coisas que eu já havia feito.

David RussellFui diagnosticado 14 anos atrás, em 2002, logo depois de vir para Los Angeles. Tinha 26 anos. Aqueles anos foram difíceis. Eu tive certeza de que minha vida havia acabado. Pessoas frequentemente tinham respostas misturadas quando abria meu status. Lembro que um cara me perguntou “por que você me enganaria?”. No início, senti que talvez aquelas reações eram justas. Ainda há tanta ignorância sobre o HIV. Sair do armário do HIV foi uma forma de buscar aliviar um pouco dessa ignorância.

O fato é que ter HIV não é mais uma sentença de morte.

É uma doença gerenciável. Tomo um comprimido por dia, vou ao médico regularmente, e cuido do meu corpo. Vivo normalmente, e alguns dias, eu nem ao menos penso na minha doença. Por alguns pontos de vista, o HIV melhorou a minha vida. Pode soar estranho, e eu certamente não desejo que ninguém contraia o HIV, mas isso apertou o botão de avanço rápido na minha vida. Me forçou a olhar para o meu interior, e me amar por quem eu sou. Antes do meu diagnóstico, eu nem considerava tanto a saúde – era mais preocupado em parecer mais jovem e mais bonito.

Depois do diagnóstico, tive que amadurecer mais rápido do que teria feito do contrário, e eu tive que desenvolver uma relação mais saudável com meu próprio corpo, e isso tem sido muito positivo na minha vida.

Ter relações fortes é uma parte forte no meu estilo de vida, e isso inclui o apoio de família e amigos – até mesmo meu médico, que me acompanha desde o meu diagnóstico. Essas relações ajudam a me sustentar. A princípio, eu me sentia envergonhado, e pedia desculpa pelo meu status, mesmo isso sendo algo que aconteceu a mim.

Um amigo me disse uma vez “por que você está se desculpando a mim? Sinto muito que você esteja assando por isso, e eu te amo”. Ele me disse que eu deveria fazer acompanhamento psicológico, e tenho feito esse acompanhamento desde então. Ele me ensinou que eu não preciso pedir perdão por ser quem eu sou.

Para mim, ser soropositivo – ser aberto sobre isso, e não viver envergonhado – levou a me tornar a versão mais completamente realizada de mim mesmo, do que eu jamais fui. Para homens gays, nossa história está sendo constantemente reescrita e contada por outras pessoas, ou apenas apagadas. Eu já via história do HIV/AIDS renegada a coluna ou simplesmente suprimida do legado de Ronald Reagan, então eu aprecio a história do estigma. Mas quero que as pessoas entendam que o HIV não tem mais um papel grande na minha vida. Não é a sentença de morte que já foi um dia; é parte do passado da minha vida.

É isso que o HIV é agora, graças aos avanços que tivemos cientificamente. É o resto que precisa acompanhar.