Cearense relata as dores e as alegrias de quem trocou de gênero mais de uma vez em busca do amor.

queerfeed-antonio-neto

Antônio Teixeira Benevides Neto é natural de Fortaleza (CE), filho de um comerciante e de uma enfermeira, vítima de leucemia quando ele tinha apenas onze meses. O padrão confortável da infância sob os cuidados dos avós pecuaristas, só foi interrompido pelos insultos e ameaças, principalmente por parte de seu pai, boêmio e alcoólatra. A história se assemelha a de muitos brasileiros dos quais ouvimos falar, não fosse o fato de Neto ter descoberto sua transexualidade muito novo e tenha mudado de gênero duas vezes ao longo da vida, até descobrir as reais motivações que apresenta, agora, em uma história autobiográfica.

Atração física pelos coleguinhas

Neto conta da atração física que sentia, ainda na infância, por seus coleguinhas, destacando o desejo e o afeto que surgiam, naturalmente, em meio às brincadeiras. Na adolescência, experimentava as descobertas sexuais e vivenciava os conflitos pessoais, sofrendo no meio em que vivia, a intolerância de uma sociedade machista e preconceituosa. Já adulto, buscando encontrar a si mesmo e a suprir uma carência emocional, aventura-se nas mais inusitadas experiências de vida. Certo de que não poderia existir de outra forma, resolve dar vazão ao transexualismo latente em sua alma, enfrentando todas as diversidades que essa escolha ocasionou.

“Com relação a minha identidade de gênero, posso dizer que, ao longo de toda a minha existência, eu sempre oscilei entre o comportamento masculino e o feminino”, explica. Segundo ele, isso ocorria de acordo com a fase na qual se encontrava e, assim, julgava mais apropriado à sua rotina.

queerfeed-mel-e-fel-3“Minhas motivações sempre foram pautadas na atração que sentia pelo mesmo sexo, e na ânsia em encontrar alguém para amar e ser amado. Encontros, desencontros, realizações, frustrações, conquistas e perdas foram responsáveis pelas mudanças que me submeti para existir.”

Abuso, rejeição e conflitos

O relato narra sua trajetória verídica de quatro décadas, em detalhes por vezes sensuais, dos cinco anos aos 45. Abuso sexual, rejeição familiar, conflitos existenciais, prostituição e relações amorosas são alguns dos temas registrador por ele. Mesmo tendo interrompido os estudos no ensino médio, devido ao bullyng decorrente de sua natureza afeminada, fez questão de dedicar boa parte dos últimos quatro anos para registrar seu depoimento sincero.

Alegrias e dores

Independentemente das “fases” masculina ou feminina que viveu, certamente Neto acumulou alegrias e dores, relatadas sob título “Mel e Fel”. São 600 páginas classificadas em 23 capítulos, que o autor acaba de publicar, de forma independente e em baixa tiragem.

queerfeed-mel-e-fel-2Esclarecer para transformar

O ser humano, que um dia assumiu a identidade feminina e voltou a se identificar o gênero masculino, aos 47 anos, divide sua rotina entre a função de recepcionista em um consultório médico, a prática de esportes e aulas de francês, na capital cearense. Perguntado sobre seu objetivo atual, ele responde com firmeza: esclarecer o maior número de pessoas sobre os temas que experienciou, diminuindo e, quem sabe evitando, o preconceito e o sofrimento das novas gerações. “Gostaria de fazer com que a minha história chegasse às mãos de um editor disposto a torna-la algo amplamente transformador”, diz Neto Teixeira.

queerfeed-mel-e-fel-capaTrechos do livro independente

§ “Discordo dos que falam em opção sexual. Ninguém opta pelo mais difícil. Eu mesmo, se pudesse ter escolhido a minha trajetória de vida, teria optado pelo caminho aceito por toda a sociedade.” P. 71
§ “Eu era chamado de veado magricela pelos colegas do colégio (…). Chegavam a pôr as mãos dentro de suas calças, tocando o pênis e, imediatamente, as esfregavam em meu nariz, obrigando-me a sentir o odor de urina.” P. 74
§ “Eram muitos os soldados (no quartel) que se envolviam em relações homossexuais. Eram homens jovens e viris. Apesar de terem suas namoradas, não dispensavam um prazer com homossexuais efeminados.” P. 144

§ “Até recorri a métodos e instrumentos que me levassem a uma postura máscula. Porém, minha alma não se convenceu.” P. 181

§ “Chegamos a São Paulo na mesma época em que o crack chegou ao Brasil. Era o início da epidemia que hoje se alastrou por toda a parte.” P. 191
§ “Enquanto seguíamos até lá (rodoviária), eu o olhava dirigindo e pensava que se ele (tio postiço) não tivesse me bolinado aos cinco anos (…), talvez eu não estivesse ali naquele momento.” P. 187

§ “Eu estava apenas iniciando naquela nova atividade lucrativa, mas sabia me comportar como um profissional do sexo. Eu sabia lidar com gente e ser gente. Nunca deixaria de ser, mesmo me prostituindo”. P. 196

§ “Havia o risco de uma viatura (da polícia) aparecer do nada e me levar, sei lá para onde. Diziam as colega que ou eles levaram para o Distrito Policial ou agrediam a gente ali mesmo, na rua.” P. 202

Visite a página do Facebook do livro Mel e Fel para mais informações.

Sobre o autor do artigo:
Claucio Brião é jornalista, professor, vegetariano e interessado em pautas com propósito. Família, amigos, trabalho e amor são meus valores. Contato: briao.claucio@gmail.com ou @claucio.briao.

Você tem um artigo que acha que seria bacana para o QueerFeed? Manda pra gente no pacheco@queerfeed.com.br que a gente posta!