Se negarmos a diversidade de nossos corpos, categorizamos nosso desejo e, acima de tudo, nossa solidariedade.

Só musculosos. Não curto afeminados. Nunca. Garotos magros em camisetas vinho e asiáticos? “Não há nada interessante nem legal sobre eles”. Algumas semanas atrás, um briefing de um fotógrafo da Poof Doof, uma festa de gay em Melbourne, na Austrália, vazou na internet e provocou indignação por seu body-shaming e sexismo. Mas o que mais me surpreendeu foi que as pessoas ficaram realmente surpresas. É algo que muitos de nós sempre estivemos implicitamente cientes de alguma forma – uma descrição de perfil do Grindr de mau gosto, cartazes publicitários questionáveis, um insulto no happy hour… Então, ver algo tangível – um documento! – tornou tudo mais real.

Foi interessante ler que “as fotos só devem ser tiradas de homens com músculos. Grandes. O tipo de músculos que resulta de passar pelo menos cinco sessões por semana na academia ”, porque formalizou a realidade de que os desejos da nossa comunidade são mantidos através de uma hierarquia: homens com músculos no topo.

Também é verdade que corpos musculosos e tonificados estão super-representados em nossa pornografia mainstream, cartazes promocionais de boates e na mídia mais ampla.

Eles se tornaram centrais em nossos desejos: tanto de nos tornarmos, quanto de namorarmos. É interessante imaginar como esse documento, mesmo que de anos atrás, cultivou, manteve e encorajou uma cultura que, até hoje, continua a fetichizar a masculinidade acima de tudo.

Precisamos entender melhor que a exposição contínua a essas imagens do que nossos corpos e desejos devem ter tem efeitos incríveis sobre nossa autoestima, nossa cultura, nossos padrões. Cria um ciclo de expectativa; uma pressão sobre como devemos olhar, agir, falar e sobre quem é considerado desejável. Não damos credibilidade suficiente à ideia de que o nosso desejo e atração flutuam e evoluem num contexto de influência social e persuasão cultural. Em vez disso, muitos de nós – de acordo com a forma como consideramos nossa sexualidade – preferimos pensar no desejo como fixo, absoluto. É mais fácil nos descrevermos como discreto para discretos do que tentar expandir nossa atração, assim como é mais fácil digitar “não curto negros, gordos nem afeminados” do que enfrentar o raciocínio internalizado de racismo, gordofobia e homofobia.

“São apenas preferências”, escrevemos, como se as preferências viessem do nada.

“Poof Doof é uma boate gay para homossexuais. Ninguém está aqui para ver garotas. Nunca. ”As implicações deste briefing eram fascinantes. As pessoas com vaginas não são bem vindas? Ou apenas afeminados, ou vestidos como mulheres? Em uma sociedade queer mais visível, onde as pessoas estão cada vez mais livres para apresentar sua expressão de gênero mais autêntica, uma postura “antimulher” parece curiosa. Mas o que também é curioso é que o entretenimento em nossos clubes é quase totalmente baseado no envolvimento e representação das mulheres. Está no modo como continuamos a nos agarrar às mulheres cis como nossos “ícones gays”, tocando Pabllo Vittar e aceitando a hiper feminilidade e a paródia feminina através de drag. Mas as mulheres na boate? Inaceitável.

A mitologia da “mulher na boate gay” dança em torno dessa suposição extraordinária de que ela está ali para exalar a heterossexualidade, sempre planejando as próximas façanhas. Eu não discordo de que a mercantilização por mulheres cisgêneras heterossexuais é um problema, mas o que é tão notável sobre essa suposição é que ela apaga mulheres lésbicas, bi e queer de nossos locais e comunidades.

Isso lhes nega o acesso e a existência e, ao fazê-lo, reafirma o privilégio desenfreado dos homossexuais e o poder sobre o guarda-chuva queer.

Haverá indubitavelmente aqueles que argumentam que a Poof Doof é uma empresa privada com o direito de discriminar com base na marca e nos valores. E eles, sem dúvida, estariam certos. Eu seria pressionado a encontrar uma empresa que não tivesse um público-alvo e não ajustasse o material promocional para refletir e atrair esse mercado. Mas isso não deve deixar a Poof Doof imune à crítica. Particularmente quando seus valores internos estão em desacordo com os objetivos políticos mais amplos de nossa comunidade: diversidade, aceitação e solidariedade.

Como um dos locais gays mais estabelecidos ao sul do Yarra, eu diria que a Poof Doof deveria assumir a responsabilidade de atender a uma subseção mais ampla da comunidade. A gerente geral da boate, Susie Robinson, aparentemente concorda, dizendo ao Star Observer que o briefing está fora de circulação há anos e está profundamente fora de sintonia com a atual missão do clube, “inicialmente [em 2011] começamos com o slogan ‘uma boate gay para homossexuais’, mas agora é ‘uma boate gay para todos’ ”. No entanto, eles têm sido lentos na transição para esse lema super inclusivo em seu site oficial.

Eu temo que estejamos nos silenciando em nosso desejo. Qual o custo? Além de matrículas infladas na academia, isso significa que nossas barreiras são maiores, o acesso é mais difícil e a pressão para se ajustar é íngreme.

Isso nega a diversidade de nossos corpos de uma maior representação, e todos nós acabamos perdendo. A mudança exige desestabilizar o nosso desejo por músculos com a exposição a novas imagens, novos corpos, novas expansões à nossa atração. Precisamos de uma maior diversidade sexual de nossas pornografias, artistas e materiais promocionais de boates.

O que eu temo é que também nos isolemos em nossa solidariedade. Temo que nossa sexualidade não seja suficiente para nos ancorar à política progressista: que se nossos direitos – como brancos, gays e cisgêneros – aumentassem mais rápido (que agora) do que os direitos de nossos mais marginalizados, nós não nos imporíamos.

O momento político ativou nossa militância, mas continuaremos a nos mobilizar quando as apostas se estenderem além do nosso umbigo?

Eu me recuso a ver o briefing da Poof Doof como um sinal de vergonha porque é uma oportunidade para refletir, seguir em frente. Nós não lutamos pela diversidade para um segurar a mão do outro e sair feliz e saltitante pela rua de tijolinhos amarelos sob o arco-íris. Nós lutamos pela diversidade em um esforço para construir compaixão, empatia e solidariedade. Criamos espaços queer integrados para aprender com as experiências, histórias e compartilhar nossas próprias histórias. Então, quando nossos direitos, como os mais privilegiados, aceleram mais rápido do que todos os outros, nós aparecemos.

Diante da supremacia branca, da transfobia, do estigma do HIV, da gordofobia, do sexismo, da misoginia e da violência masculina, nós nos destacamos.

Nós aparecemos por causa de nosso privilégio relativo, não apesar dele.

Artigo de Dejan Jotanovic para o The Guardian.