Parece fácil quando se é criança. É tudo muito simples, a gente sabe pouco do que é a vida de adulto, de fato. Tudo parece tão longe. A gente quer ser adulto logo, mas esse dia não chega nunca. Tudo parece tão inatingível, inclusive a gente. A gente não precisa juntar dinheiro, não precisa fazer dieta, mal precisa se preocupar em fazer exercícios, não precisa se planejar… Porque tem toda uma estrutura para fazer isso por nós. Pensar no futuro é redutivo como decidir se a gente quer ser astronauta ou viver numa casa da árvore.

À medida que a gente cresce, aos poucos, a vida ganha (ou perde) uma nova paleta de cores. As amizades se dispersam, as responsabilidades aumentam e as preocupações se multiplicam.

À iminência dos 30 anos, a ideia de que já passou da hora de ter só certezas sobre o futuro é sufocante. A profissão que foi escolhida com tanta certeza na época do vestibular começa a perder o sentido, as amizades ficam cada vez mais escassas e os prazeres, que passam a ter ainda mais valor, se tornam mais esporádicos por causa do preço que precisamos pagar por eles.

E o futuro continua sendo uma grande incógnita. Desesperadora. Sufocante. Ainda mais quando se ouve de pessoas mais velhas que, a partir dos 30, é ladeira abaixo.

Me pergunto como meus conhecidos que têm seus próprios negócios, que passam a impressão de que estão com a vida totalmente encaminhada realmente se sentem. Será que eles passam pela mesma crise. Já passaram? Ou ainda vão passar?

De tempos em tempos, eu tenho a impressão de que eu não tenho nada. Nada está certo, nada está encaminhado. Eu ainda não tenho minha casa, não tenho meu carro, não tenho meu negócio próprio, não tenho uma reserva financeira. Nada! Ultrapassando a camada capitalista do ser, a sensação é a mesma. Não tenho muitos amigos, fico sem ver com frequência os poucos que tenho, não tenho alguém para chamar de meu (por mais egoísta que isso possa soar), não tenho uma carreira consolidada, a saúde está longe de ser 100%, não sou o padrãozinho que tanto julgo, mas que, no fundo no fundo não acharia ruim ser, não tenho uma família com quem possa conversar abertamente sobre os meus problemas, dúvidas e questionamentos.

A impressão real é de que não tenho nada!

Apesar de tudo isso, eu ainda tenho o presente de ter um ótimo emprego, em um lugar em que não preciso esconder quem sou, com pessoas incríveis, tenho talentos (ainda que medianos) em coisas que grande parte das pessoas não têm, sou multiuso, otimista, conheço muita gente (mesmo que poucas pessoas sejam bons amigos), pude criar um espaço em que posso me expressar abertamente, sem preocupação de ser julgado ou censurado…

Só que enxergar esses aspectos bons é ainda pior. Porque é aí que os problemas soam como “problemas de quem não tem problema de verdade”. É ainda mais chato se julgar por pensar que, pelas oportunidades que eu tive e continuo tendo, eu nem poderia estar me sentindo assim.

Tenho vergonha, sempre que externo esse sentimento. Sinto que não tenho do que reclamar, porque estou em uma posição que grande parte da população gostaria de estar.

Então por que caralhos eu me sinto tão perdido?

A vontade é de sumir. Largar tudo, jogar tudo para o alto e virar minha vida em 180º. Mudar de emprego, sair de casa, mudar de cidade, mudar até de país. Mas essa maldita incerteza é sempre o que me impede de fazer isso.

Queria ser mais destemido, como algumas pessoas. Ter a capacidade de me jogar mais na vida.

Enquanto isso, a gente vai tentando seguir a vida desse jeito mesmo. Com medo mesmo.