Seja em casa, no metrô ou trabalho, navegar na internet sempre me leva a dois lugares: gatinhos e pornô. Pode ser no Twitter, Tumblr, zuera de WhatsApp e até os grupos de nudes do Facebook, eu sempre chego em algum conteúdo erótico.

No ócio do pensamento, a questão me levou a procurar algumas informações sobre. É claro que encontrei bastante conteúdo acerca de pornografia hétero. Inclusive, um levantamento feito pela produtora Sexy Hot que aponta que no Brasil 22 milhões de pessoas jogam a real e admitem consumir pornografia. Dessas, 76% são homens e 24% mulheres. O maior público, 58%, tem menos de 35 anos, é de classe média alta, com 49% da classe B, e está namorando sério — 69% estão em um relacionamento. Isso, claro, sem computar menores de idade.

Focando nas gays, encontrei outro levantamento, desta vez do PornHub. No Brasil, o aumento de mulheres que procurou por pornô em 2017 foi de 8%. Ou seja, 35% do público brasileiro da ala gay da plataforma foi de mulheres, para 65% de homens.

Os assuntos mais assistidos são “Negros”, “Caras héteros”, “Coroas”, “Bareback” e “Pau grande”.

O PornHub é o 34º site mais acessado no mundo, segundo relatório trimestral da Amazon. No Brasil ele fica em 50° lugar, perdendo feio para o queridinho Xvideos, na 17° posição. Sim, por aqui, o Xvideos ganha em acessos de sites como a Folha e Twitter, quase empatando com a Netflix, em 15° (“vamos lá pra casa assistir um filme” nunca fez tanto sentido).

Mas como esse tanto de pornografia afeta nosso imaginário e a forma como sentimos prazer?

Adentrando mais esse universo, caí neste texto de um grupo feminista contra a pornografia, que explica como ela pode influenciar os hábitos sexuais dos caras de uma forma agressiva, naturalizando a violência sexual.

“A pornografia normaliza a satisfação dos homens ao sexualizar a degradação das mulheres. A violência sexual é comum em nossa cultura, não porque os homens nascem doentes, mas porque garotos normalmente são socializados para serem sexualmente dominantes e as meninas normalmente são sexualizadas para serem socialmente subordinadas. A dor e degradação feminina foram sexualizadas e alavancadas como prazerosas”.

Ok, mas e quando, na frente da câmera, estão dois marmanjos, musculosos e “brutos” no tradicional hardcore sex?

Como não sou estudioso do tema, bati um papo com Michel Carvalho, que é doutorando da UFRJ e pesquisa pornografia e raça. “A questão aqui é sobre performatividade de gênero, masculinidades, feminilidades e anatomias corporais. O pornô trabalha com ideários socialmente propagados, com dinâmicas bem marcadas. Dentro-fora. Ativo-Passivo. Homem-Mulher”, explica. “A questão não está na pornografia em si, e sim na égide da heteronormatividade e no binarismo sexual e de gênero no qual estamos inseridos. O pornô apenas joga com isso”

Para quem assiste vídeo de sexo gay, seja amador ou não, é comum, logo no começo, já perceber quem “detém o poder” na cena. Esse personagem é sempre o ativo, o que é chupado, o mais forte, o mais “bonito” e com jeitão de hétero.

“É muito comum nos arranjos homossexuais encontrarmos intercursos bem marcados acerca do papel ativo penetrador e passivo penetrado, assemelhando-se ao feminino nos arranjos heterossexuais”, compara Michel.

Nessa de pensar na reprodução da heteronormatividade no porno gay, e como o homem fetichiza a dor, lembrei de um post bizarro feito pelo BuzzFeed no ano passado. Em um grupo de Facebook, caras gays ativos comentavam sobre sentir prazer na dor do passivo.

Chegamos então a problemática (?) do passivo: o gay afeminado que “faz o papel” da mulher, e, como ela, vale menos que o gay machão, que detém o poder na cama e na sociedade. Quem eu busquei para comentar sobre isso foi a documentarista e videoartista Taís Lobo, que manja de gênero, sexualidade e feminismo. “Essa relação de poder na pornografia é reflexo das relações reais de poder de uma sociedade cis-hetero-sexista-machista-racista. São relações sexo-afetivas enquadradas dentro de uma heteronorma”, explica.

“No caso da pornografia gay, a mesma coisa: as relações homonormativas são refletidas nos desejos e nos prazeres. A ideia de ativo-controle/ passivo-controlado é uma ideia hegemônica de uma sociedade de controle regida por lógicas patriarcais machistas e heterossexistas”.

Nem precisa falar como isso é tóxico para toda as relações né? A indicação da Taís para quem quer ler mais sobre o assunto é a sapatão teórica feminista Monique Wittig. Dica!

Mas pornô é assim pra gente consumir, ou a gente consome porque é assim?

Chegamos neste ponto: a pornografia é assim porque nós gostamos desse estilo de sexo, ou nós gostamos desse estilo de sexo porque vemos na pornografia? Para Michel, um pouco dos dois. “É importante ressaltar que o pornô não é o grande ‘culpado’ pelas agruras, preconceitos e prejuízos sociais. A pornografia justamente capta esses imaginários sociais e através de uma lente de aumento os levam à cena. Ela também não é exatamente a mocinha da história e de alguma forma retoma, reitera e reproduz preconceitos sociais e contribui para a reprodução da lógica de opressão”. Sacou?

O doutorando ainda lança uma reflexão: a mudança social, a quebra de preconceitos, paradigmas e estereótipos virá primeiro socialmente ou virá primeiro através dos conteúdos pornográficos? “Estamos num momento muito intenso e positivo de debates, movimentos sociais articulados, criminalização de crimes de ódio, do feminicídio… Estamos em pleno processo de mudança. Acredito que de alguma forma o pornô vai acompanhar a roda da história”.

E isso já está rolando na chamada pós-pornografia. O movimento vem desconstruindo a pornografia tradicional e as instituições sexuais. “Um exemplo é o sadomasoquismo nas relações lésbicas, que joga com os poderes de um modo subversivo. Em vez de exercer poder sem saber, você sabe que existe um jogo de dominação e muda as regras desse jogo. É como se fôssemos infiltradas, mudando o código desde dentro”, conta Taís.

A crença da artista é que o pós-pornô possa nos deseducar em relação ao uso hegemônico dos prazeres. Seria tipo uma educação sexual mais livre que defende autonomia do corpo em relação aos desejos e prazeres.

“O pós-pornô hackeia o nosso código introjetado por anos por uma educação heterocentrada baseada em poderes hegemônicos coloniais e capitalistas (o homem sobre a mulher, o branco sobre o negro, o senhor sobre o escravo, o patrão sobre o trabalhador, o ativo/a sobre o passivo/a)”, conclui.

Para fechar, um pensamento de Michel que me fez questionar minha visão sobre essa pornografia toda: “o pornô não é uma arte estática, ele observa e capta os imaginários sociais. Com a mudança destes, ele também vai mudar. Tem que mudar. Até mesmo para satisfazer seu público”.

Pedro Lira é jornalista, social media e uma pessoa falante! Nascido e criado em Brasília, mas morador do Rio de Janeiro, acredita em formas mais honestas de se escrever e contar histórias: falando de nós mesmos. Apaixonado por dados, direitos humanos, causas LGBTs e memes, é usuário pesado de redes sociais e leio sobre absolutamente tudo! Está no Instagram, Twitter, Facebook e Medium.

Leia também sobre o problema de fetichizar a masculinidade acima de tudo e como o sexo online está cada vez mais branco, magro e hétero.