Jicama Fine postou uma carta aberta a jovens LGBT esta semana que todos nós, membros da comunidade LGBT precisamos ler, independente da idade. Sua lição pode inspirar você na sua jornada, e te mostrar a sua importância para a comunidade. Confira a carta traduzida na íntegra:

Carta à minha comunidade Queer

Gostaria de falar à minha comunidade Queer mais jovem. Aqueles de vocês que não haviam nascido durante a sombria época da praga da AIDS. Alguns de vocês me chamam de idoso. É um título do qual eu frequentemente corro. Me assusta. Mais até porque serei responsável pelos conselhos que dou a vocês.

Desde o resultado das eleições [americanas], me encontro em um ponto sombrio. Estou com medo, aos prantos às vezes. Minhas mãos tremem. Tenho vontade de me esconder em minha casa a portas trancadas. Meu coração está aos pedaços. Ainda assim, através do meu próprio luto e medo, eu vejo vocês. Seus rostos vêm até mim, alguns familiares, alguns não.

Eu vejo sua dor e medo, e eles são válidos. Não são imaginários. A ameaça é real. Eu quero confortar vocês e dizer que tudo ficará bem, mas não tenho certeza disso.

Muitos de vocês foram desertados ou têm uma reação complicada com suas família00s por serem Queer ou soropositivos, ou por causa da última eleição, ou outras circunstâncias. Muitos de vocês não têm alguém mais velho com quem contar. Muitos de vocês se sentem sozinhos.

Tenho esperado para me sentir mais forte ou completo, ou para quando meus pensamentos estiverem mais organizados para falar com vocês, mas não tenho certeza de quando isso acontecerá.

Uma coisa que tenho para compartilhar com vocês é minha experiência.

Eu já estive nessa situação difícil algumas outras vezes. Uma delas foi durante os anos 80, início dos anos 90. A AIDS dizimava nossa comunidade. Nossos entes queridos, amigos, desconhecidos, e até nós próprios estávamos sofrendo e morrendo deste doença terrível.

Eu mesmo fui diagnosticado soropositivo em 1985. Chorei, me escondi, fiquei sem chão. O tratamento eficiente ainda estava a 9 anos de distância. Achei que viveria no máximo mais 2 anos. Felizmente, tive o apoio da comunidade Queer em Seattle.

O governo não estava fazendo nada para cessar a epidemia da AIDS. Alguns dos ditos cristãos estavam pedindo pelo enterro em massa de pessoas com AIDS, dizendo que deveríamos morrer e ir para o inferno. Até mesmo alguns profissionais da saúde se recusavam a tocar pacientes. Famílias se despedaçavam, filhos e filhas eram abandonados, estigmatizados e largados para morrerem sozinhos.

Os membros de nossa comunidade estavam destruídos física, emocional, mental e espiritualmente. Nós estávamos em pedaços.

Começamos a cuidar uns dos outros. Nós não tínhamos tempo de esperar nos sentirmos bem ou de nos recuperarmos. Cuidamos uns dos outros da melhor forma que pudemos. Usamos as habilidades que tínhamos. Construímos uma comunidade com as peças quebradas de nós mesmos. Muitas novas habilidades foram aprendidas na prática.

Cometemos erros, nos deprimimos, enterramos nosso entes queridos, e, de alguma forma, seguimos em frente.

Eu tinha um amigo mais velho que dizia com frequência “faça a próxima coisa mais óbvia”. Tinha acabado de conseguir minha licença para fazer massagens em 1985 e decidi usar isso para ajudar. Comecei a fazer massagens em um ou dois pacientes na minha casa, uma vez por semana e, eventualmente, me juntei a uma equipe de massagistas que ia aos hospitais e hospícios de Seattle para confortar os doentes e moribundos. Eu massageei corpos desfalecidos, às vezes cobertos com lesões de SK [sarcoma de Kaposi, um câncer raro de pele, geralmente associado com a AIDS].

Fiz coisas que não achei que seria capaz de fazer. Meus dedos ainda têm a vívida memória da sensação.

Às vezes, essas pessoas eram entes queridos, mas muito frequentemente eram estranhos. Alguns não tinham família para apoiá-los, outros tinham. Havia mães, pais, irmãos que cuidavam de seus amados em meio ao medo e estigma. Alguns morreram sozinhos. Tentamos dar apoio e recuperar aqueles caindo pelo meio do caminho. Frequentemente falhamos.

Desta base de amor e carinho, organizações surgiram. Nós lavamos louças, faxinamos casas, limpamos bundas, fizemos comida e alimentamos uns aos outros. Organizamos protestos e ações para trazer atenção à falta de responsabilidade do governo. Pessoas com fé de verdade vieram e ajudaram. Alguns de nós até concorremos a cargos políticos.

Conto essas coisas, não porque quero ser chamado de herói ou alimentar meu ego, mas para dar a vocês o benefício da minha experiência. Muitos outros fizeram muito mais que eu, frente a medos muito maiores.

Fui ao hospital confortar um amigo em seu leito de morte e, em vez disso, ele acabou me confortando. Ele morreu limpo, sóbrio e encarou sua morte com graça. Ele foi um herói.

Não posso contar essas coisas sem reconhecer as mulheres que ajudaram tanto. Elas são o alicerce desse movimento. Muitos de nós, homens, estávamos despedaçados e tristes. Muitas vezes, me entreguei aos braços de mulheres que estavam fazendo o trabalho. Elas literalmente me reergueram em certos momentos. Nós nos unimos de diferentes identidades de gênero, cores e histórico econômico.

Apesar de as circunstâncias serem diferentes hoje, vejo muitas semelhanças. O ódio é o ódio e o medo é o medo. O ódio é um encanto sombrio alimentado por mais ódio. Tente não alimentá-lo.

Essa coisa chamada coragem não é algo que carrego comigo o tempo todo e que posso dar. Coragem de verdade vem de dentro de si, no momento em que é necessária. Não vem com bandeiras ou trompetes anunciando sua chegada.

Frequentemente [a coragem] vem com lágrimas e temores, e a necessidade de correr e se esconder. A coragem não é a ausência de medo.

Eu vejo vocês, membros mais jovens da nossa comunidade, e isso me traz esperança. Vocês são inteligentes, fortes, têm energia e amor. Tenho a honra de tê-los em minha vida. Eu vejo o trabalho que vocês fazem e os riscos que correm e sinto-me humilde. Olho para vocês e vejo os rostos dos ancestrais Queer que conheci. Seus ancestrais Queer estão com vocês em espírito e também de formas mais tangíveis. Eles sobrevivem nos direitos e organizações de que nós nos beneficiamos hoje.

Esta é uma época estressante. A força dos vícios é forte. Se você precisar de ajuda, peça. Ela existe. Eu amo você. Preciso de você. Conserte suas cercas quebradas; nós precisamos de todos. Cuide bem de si próprio e dos outros, física, emocional, mental e espiritualmente. Fortaleça os laços. O trabalho se apresentará se estivermos prontos.

Se você se sentir mal, olhe à sua volta. Há sempre alguém pior que você. Preste apoio a essas pessoas.

Outras comunidades estão sob ataque. Não posso falar sobre elas. Posso apenas contar a minha história. É possível encontrar as histórias deles em outro lugar.

Ofereço a vocês essas palavras e os meus pedaços quebrados. É tudo o que tenho.


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