Eu sei que você me ama. Eu sei que você faz o seu melhor. Que a vida que eu tenho hoje é cheia de privilégios. E que você é a razão por eu ter o que tenho hoje.

Eu também sei que você é humana. Tem seus defeitos. Suas crenças. Seus ideais.

Eu faço meu melhor para ser quem sou hoje. Para ser responsável. Para ser um bom adulto. E também sei que você sabe disso. Que você sabe que eu não sou perfeito.

Mas uma das coisas que mais me machuca, mesmo aos 31 anos de idade, é saber que você acha que eu sou quem eu sou por opção. E isso eu não consigo entender. Porque, frequentemente, eu sinto que você me ama apesar de eu ser gay. E não independentemente de eu ser gay.

Eu sei que você acha que eu escolhi isso como um estilo de vida. Como escolhi minha profissão.

Não sei se você acha que foi por rebeldia, mas sei que você ainda hoje acha que é uma fase que vai passar.

Já é muito claro que a homossexualidade não é opção, não é um estilo de vida, nem essa tal rebeldia. Ninguém escolhe ser gay. Por isso, eu não consigo entender como você pode achar que eu optei por isso.

Você me conhece há mais tempo do que qualquer outra pessoa no mundo. Me viu crescer. Era você quem me ouvia chorando por todas as merdas que eu passava na escola. Era você quem me consolava.

O pior é que eu lembro vividamente de todas as vezes em que eu fazia algo que te deixava desconfortável. De quando eu te contei que achava um menino da sala de aula bonito. De quando eu dancei Britney Spears na sala para você pela primeira e última vez.

Eu lembro porque a imagem do seu rosto me olhando em desaprovação e decepção é uma imagem que eu jamais vou esquecer. Porque olhar no rosto de quem eu mais amo e ver a decepção por uma parte tão forte de quem eu sou doeu e me marcou mais do que qualquer xingamento ou violência que eu sofri na escola ou na rua. Porque eu sofri dentro de casa. No meu porto seguro. Aonde eu achei que era totalmente acolhido.

Não é possível que você ache que se eu tivesse tido escolha, eu escolheria passar por isso.

Eu jamais escolheria me olhar no espelho e enxergar ser uma decepção para a minha mãe.

Doeu e dói até hoje saber que por toda a minha vida, eu jamais vou poder atender a uma expectativa tão grande que foi você quem criou ao meu respeito. Mas dói um tanto que você nem imagina. Sentir o desespero de se sentir um lixo fora e dentro de casa. Eu jamais optaria por isso.

Hoje em dia eu entendo o seu ponto de vista. Sei que você tem sua criação. Mas isso não faz doer menos. Só me faz me conformar.

De que as coisas são e serão assim para sempre.

Dói saber que não importa o quanto eu trabalhe, o quanto eu seja bom no que eu faça, eu sempre vou ter que me esforçar dez vezes mais para compensar o fato de eu ser gay. Eu nunca escolheria passar por isso.

Dói porque eu sei que ninguém é perfeito, mas eu também sei que isso não é imperfeição nenhuma, mesmo que você não entenda.

Eu não tenho raiva de você e de nada pelo que passei porque foi isso que me tornou a fortaleza que eu sou hoje.

Mas confesso que me entristece perceber que você não tem a menor vontade de entender as coisas pelas quais eu passo. De saber da minha vida. De aprender sobre uma realidade diferente da que você já conhece. De conhecer as belezas do meu mundo. E de ser minha companhia nas tristezas deste mesmo mundo.

Mesmo assim, sou grato por ter você como minha mãe.

Te amo demais, mesmo que nossa relação não nos permita dizer isso com mais frequência.