Muito se fala hoje em dia sobre a comunidade Ursina. Homens peludos, gordinhos, másculos e seus admiradores chegaram ao papo de mesa de bar no Brasil há alguns anos, mas já frequentam esse mesmo bar há décadas.

Há quem diga que o início da comunidade Ursina se deu em São Francisco (Califórnia) na década de 60, outros dizem 80. Em 2016 eles já têm suas próprias baladas, publicações, marcas de roupas e acessórios, seriado, festival, bandeira (clique nos links se quiser saber sobre cada um)… além de muitos (muitos mesmo) admiradores! Se você frequenta o meio gay noturno – principalmente se mora em São Paulo ou no Rio – já está acostumado com a presença deles.

 

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Esse grupo de homens começou a se identificar e se reunir quando um estereótipo gay de homens jovens, magros e sem pelos começou a se firmar na sociedade. Como um movimento de “resistência pacífica” à ditadura estética, digamos assim, e uma pitada de sensualidade e fetiche. Logo esses homens peludinhos e gordinhos (ou fortinhos) começaram a ser associados à masculinidade e à discrição, e não demorou muito para que o grupo formado pela inclusão de indivíduos considerados “fora do padrão” se tornasse um grupo baseado em um novo padrão, e a exclusão de quem não se encaixasse nele. Irônico, não é mesmo?

Antes de escrever esse texto fiz uma pesquisa sobre a história da comunidade e suas características atuais. E, para mim, ficou bem claro o aspecto dualista desse grupo que defende tanto seu direito de ser diferente: temos o lado fetichista (de exclusão) e o lado cultural (de inclusão).

Se você já pesquisou sobre os Ursos na internet, sabe que existem dezenas de “classificações”, de acordo com o tipo físico do indivíduo. Ursos Polares, Daddies, Cubs, Lontras… Se você quiser ler sobre todas as classificações, clique aqui. Esse excesso de nomeações deixa bem claro o lado fetichista deste grupo, que exclui e classifica a partir de peso, quantidade de pelos corporais, idade e outras características físicas. Se você não se encaixa em nenhuma das classificações, é apenas um admirador. E se você for afeminado, teoricamente não se encaixa em nenhuma delas. Simples assim.

Afeminados não são bem vindos na cultura Ursina fetichista. A fantasia do urso lenhador é baseada na masculinidade bruta e sem vaidade. Alô heteronormatividade!

Os ursos, digamos, mais “tradicionais” e apegados a essa fantasia de urso masculino costumam ser discretos e abominar os afeminados. Tradicionalmente se interessam por esportes, rock, cerveja, roupas xadrez (hahaha), barbas e acessórios de couro. Também são menos abertos aos admiradores que fogem ao seu esterótipo, assim como a homens mais novos. Esse grupo tem diminuído nos últimos anos, creio eu.

 

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Mas nem tudo é exclusão e futilidade! A comunidade Ursina ainda carrega, sim, seu lado inclusivo, onde as pessoas que não se identificam com a estética dos caras malhados e depilados se encontram. Gordinhos, fofinhos, com ou sem pelos, com ou sem barbas, masculinos e afeminados, magrinhos ou pintosas! Em 2016 a tendência é inclusão, e unidos em torno de uma relação com a comunidade ursina, seja ela qual for, todos somos amigos! Os grupos ursinos costumam ser próximos e unidos como uma irmandade.

Talvez você não saiba, mas os ursos têm muito mais admiradores do que as pessoas imaginam!

Acontece que muitos desses admiradores, por não conviverem com a comunidade ursina, escondem suas preferências por medo do julgamento alheio. Num mundo onde obesos e idosos são constantemente ridicularizados, nem sempre é fácil deixar os outros saberem que você só gosta de gordinhos, peludos ou caras mais velhos. É a ditadura estética excludente dentro da comunidade gay.

Eu, como urso feliz casado com outro urso, acredito que a comunidade ainda tem muito a melhorar, assim como a comunidade LGBT em geral. Vamos problematizando e propondo mudanças, certo? Convido a todos que ainda tiverem dúvidas ou opiniões a comentarem aqui embaixo ou na nossa página do Face. Quem preferir pode enviar uma inbox para desabafar, estamos aqui pra isso!