O “Orgulho Hétero” está nas manchetes há algumas semanas, principalmente depois que um grupo chamado Super Happy Fun America recebeu uma permissão para realizar o evento em 31 de agosto na cidade de Boston, nos Estados Unidos.

De acordo com seu site, eles esperam que o desfile e a plataforma signifiquem que “finalmente as pessoas héteros têm suas vozes ouvidas”. Pausa para um olhar dramático.

Em vez de simplesmente ignorarmos essa reação infantil às pessoas LGBTQ recebendo mais atenção do que nossas contrapartes hétero por apenas UM MÊS, pensamos que seria uma boa oportunidade para lembrar a nossa comunidade e aliados porque o Orgulho (o verdadeiro) ainda é de vital importância para a comunidade queer.

Aliados heterossexuais continuam sendo essenciais em nossa jornada em direção à igualdade, aceitação e celebração, mas com uma minoria muito alta de pessoas heterossexuais claramente entendendo mal o propósito do Orgulho, coletamos dez razões pelas quais um “Orgulho Hétero” é completamente desnecessário.

Porque aparentemente ainda é necessário explicar.

1. Pessoas cis héteros não estão sendo assassinadas por serem heterossexuais

O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Segundo dados do ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), em 2018, 163 pessoas trans foram assassinadas no Brasil. Dessas, mais da metade foram mortas com armas de fogo.

Ainda mais alarmante, é o dado de que 97% são travestis e mulheres trans, 82% são pretas ou pardas e 60,5% tem entre 17 e 29 anos.

Além desses dados apenas com pessoas trans, quando as outras letras da sigla LGBTQ+ são incorporadas, os números ficam ainda mais assustadores.

No Brasil, a cada 16 horas é registrada uma morte por homofobia.

Agora, fiquei interessados em saber as estatísticas em torno da violência contra os héteros cis – alguém tem um link? Mas só valem dados referentes a violência contra a orientação sexual e identidade de gênero, hein?

2. Pessoas cis héteros podem viajar sem medo de serem hétero

No começo do ano, Brunei foi manchete quando anunciou que puniria a homossexualidade com a morte a pedradas. Quando as pessoas heterossexuais estão pesquisando suas férias, elas também estão pesquisando se serão apedrejadas até a morte na chegada?

3. Pessoas cis héteros sempre puderam se casar legalmente

O casamento entre pessoas do mesmo sexo ainda é uma batalha em andamento em muitas partes do mundo, e há um medo crescente de que em alguns lugares os novos direitos sejam revogados.

No Brasil, aliás, o casamento igualitário não é lei, mas é um direito garantido pela Justiça.

4. Pessoas cis héteros nunca foram presas por serem heterossexuais

Ser gay era crime até há relativamente pouco tempo, e enquanto as ações de pessoas heterossexuais ainda são puníveis (a menos que estejam exercendo liberdade de expressão por serem intolerantes, mas não vou nem entrar nessa discussão) elas nunca enfrentaram encarceramento por quem elas amam ou como se identificam.

5. Pessoas cis héteros não são chamadas de ‘pecadoras’ por serem heterossexuais

Dito isto, as pessoas hétero não receberam os nomes fofos que recebemos – alguns dos nossos favoritos pessoais são “abominação”, “demônio” e “nojento”. E ainda não ouvi nem ao menos um único caso de “terapia de conversão hétero” sendo apoiada por líderes religiosos.

6. Pessoas cis héteros não enfrentam ‘heterofobia’ no local de trabalho

Com as leis sobre a discriminação no local de trabalho ainda não amplamente difundidas, as pessoas queer ainda precisam decidir se são ou não autênticas em suas carreiras. Não há lugar que impeça as pessoas heterossexuais de trabalhar porque elas são heterossexuais – nem mesmo o QueerFeed!

7. Pessoas cis héteros se veem em toda a cultura popular

Perpetuada em basicamente quase todas as narrativas tradicionais, as inúmeras experiências de pessoas heterossexuais são literalmente impossíveis de serem ignoradas. É novela, é série, é filme…

O mesmo não pode ser dito para nós, e é por isso que a gente fica louco com o simples RUMOR de personagens queer em qualquer coisa.

8. Pessoas cis héteros não precisam corrigir outras pessoas sobre seus pronomes

Pessoas cisgênero geralmente não precisam corrigir as pessoas sobre seus pronomes preferidos – muito menos passar por meses (se não anos) de correspondência apenas para obter um passaporte, ou uma carteira de trabalho, ou CNH…

9. Pessoas cis héteros não têm ajuda médica negada por serem heterossexuais

Desde os procedimentos óbvios como cirurgia de confirmação de gênero até mesmo aos serviços de emergência, as pessoas LGBTQ ainda não recebem assistência médica adequada com base em sua identidade. Ah, e por falar nisso, por último e não menos importante…

10. Pessoas cis hétero nunca foram proibidas de doar sangue

Imagina que lindo seria se você, amigo hétero, só pudesse doar sangue depois de passar 12 meses sem sexo… O banco de sangue no Brasil teria quantos litros sangue em estoque?

Pois bem, o Brasil perde em média 18 milhões de litros de sangue por ano só por conta do preconceito. Isso porque até 2004, homens que fazem sexo com homens eram totalmente proibidos de doar sangue!

Isso é pelo preconceito de que homens gays têm mais propensão a terem AIDS, quando, na verdade, apenas 0,4% da população brasileira é portadora do HIV.

Aliás, dá só uma olhada nos mitos e verdades sobre a AIDS.

Enfim, quantos motivos mais você acha que são necessários pra mostrar que o “Orgulho Hétero” é uma ideia ridícula?